Thursday, December 07, 2006

De mão dada a Tanima

Chegámos a Calcutá numa manhã de Domingo. Na segunda cidade mais populosa da Índia fomos agradavelmente surpreendidos pelo descanso dominical, com um trânsito fluído e o parque Maidan cheio de famílias gozando o sol, jogando criquete ou andando a cavalo. Claro que algumas coisas não dormem com o final da semana, como as ensurdecedoras buzinas ou a dolorosa pobreza; infelizmente essas ainda preenchem diariamente a rotina da cidade, o cenário do país.

Com um dia apenas para descobrir os principais atractivos da cidade, escolhemos visitar o Victoria Memorial, onde os ingleses deram largas ao espaço e à forma, erguendo um edifício majestuoso em homenagem à primeira rainha imperatriz da Índia, e conhecer o Centro Madre Teresa de Calcutá, onde pobres e abandonados, na desprotegida infância ou solitária velhice, são acolhidos pelas missionárias da caridade, com um inesgotável amor e amparo maternais. Duas visitas distintas, marcando o ainda extremado retrato da India: exuberância e pobreza vivendo lado a lado num choque sem mistura, como que passivas vítimas de um fatal destino.

E com estas primeiras impressões da cidade preparamo-nos para o que verdadeiramente nos trouxera a Calcutá: uma visita a Tanima.

Tanima, uma menina de oito anos que para nós era ainda pouco mais que uma fotografia. Uma entre tantas que vimos no site da Children International, uma entre tantas para apadrinhar pelo mundo fora por um futuro melhor.

A Children International, com a ajuda de padrinhos de todo o mundo, procura dar a mão a crianças desfavorecidas para que possam contrariar uma vida de pobreza que receberam sem pedir. Garantindo-lhes escola, nutrição e acompanhamento médico, estas crianças podem aprender e crescer saudavelmente, no seio das suas famílias, desafiando um destino de ileteracia e trabalho precoce a que o seu estado de sobrevivência normalmente conduz. Apoiadas na infância e adolescência, estas crianças podem percorrer um caminho diferente dos seus pais, avós, bisavós ... podem escrever o destino pelas suas próprias mãos, provando que a condição de pobreza não é como o sistema castas que infelizmente ainda hoje marca o destino dos filhos, mesmo antes do seu nascimento.

E a Tanima é a menina que apadrinhámos pela Children International e que quisemos visitar nesta nossa viagem pelo mundo. Acompanhados pela Ulmira, assistente da organização, seguimos estrada fora por essa Índia ainda mais profunda, aquela que não aparece em postais mas que está mesmo ali ao lado. Numa viagem de uma hora saímos da cidade e entrámos num cenário rural onde as aldeias se resumem a um par de ruas, com uma mercearia e café de apoio, e onde as casas se abrem para a rua em singelas construções.

E numa dessas aldeias virámos para entrar, tínhamos chegado. À saída do jipe os nossos olhos absorviam tudo à volta que nem esponjas, com o entusiasmo do iminente encontro. Um grupo de crianças olhava-nos atentamente à distância e uns olhos negros, grandes e profundos cruzaram-se timidamente com os nossos revelando a sua identidade no meio de todos os outros. Era aquela a Tanima, a menina do vestido cor de rosa.

Com ela estavam os pais, a irmã, os avós, os tios, os vizinhos. Todos com um enorme sorriso, querendo ver-nos e partilhar a visita.
Muito observados sentimo-nos acima de tudo bem vindos. E pela mão de Tanima, entrámos na sua casa, na sua rotina, na vida de uma família pobre da Índia. Uma vida muito simples onde uma única divisão aconchega os sonhos do casal e das duas irmãs ao final do dia. Uma vida onde não há televisão, onde as necessidades se resumem ao básico, ali, no meio de um cenário tropicalmente verdejate, isolado de quase tudo. Mas mesmo enfrentando uma vida difícil todos os dias, com pouco mais de 40 dólares por mês para o sustento de toda a família, os pais de Tanima receberam-nos de braços abertos, com um sorriso cheio e o olhar agradecido por estarmos a ajudar a sua pequenina filha com queda para a poesia.

Uma pequena ajuda nossa que pode fazer toda a diferença, para a Tanima, para os seus pais, para os seus filhos no futuro. Emocionados com a recepção sentímo-nos de coração cheio e partilhámos o dia com eles, brincando com a Tanima e os meninos vizinhos, almoçando na rua com a família anfitriã e visitando a escola da aldeia.

A escola, uma casa ruída pelo tempo, que entre salas cobertas e a descoberto acolhe 250 crianças todos os dias, divididas por cinco professores. À chegada, uma pequena revolução infantil despoletou à nossa volta. Olhares curiosos de quem ainda não tinha visto brancos ao vivo ou tocado uma máquina fotográfica, um acotovelar incessante para poder chegar mais perto. Sem conseguirem controlar a excitação dos miúdos, os professores acabaram por lhes soltar forçadamente as rédeas, enquanto eles nos envolviam e diziam "namascar! namascar!". E no meio de todas aquelas crianças a Tanima sentia-se naquele dia especial. Nós éramos os seus amigos que ali estavam a visitá-la.

De regresso a sua casa esperava-nos uma refeição preparada com o esmero de quem deu tudo o que tinha para a condimentar, entre peixe, carne, arroz, legumes e docinhos. Comemos e partilhámos com as outras crianças que, espreitando entre as pernas dos seus pais, nos olhavam num misto de timidez e brincadeira, entusiasmados com aquele dia.

Sem uma língua comum para partilharmos sonhos e projectos, a Ulmira foi a nossa ponte neste dia traduzindo e voltando a traduzir, entre perguntas e respostas que se lançavam no ar. Mas mesmo sem a transparência da língua, percebíamos no olhar de Tanima que por detrás da timidez revelada se escondia um olhar esperto e desafiador, uma menina lutadora com o sonho de ser professora. Orgulhosos dos prémios que esta menina de oito anos já trouxera para casa, por tão bem declamar poesia, os pais de Tanima pediram à filha para nos presentear com um poema. E ela assim fez. Com os olhos inundados de expressão, a Tanima libertou a timidez e recitou-nos um poema, num sopro de ternura infantil. Palavras que não nos diziam nada mas que entoadas numa melodia sentida nos revelavam alegria, tristeza ou suspense. Acabando o poema com um "namascar" amparado pelos suas maozinhas juntas em posição de cumprimento, a Tanima sorriu-nos com os seus olhos negros, num timido orgulho da sua arte.

À despedida, sentíamo-nos cheios de emoção. Pessoas que não conhecíamos e que nos receberam como família. Pessoas que pouco têm e que mesmo assim sabem dar. Pessoas que lutam todos os dias pela vida e que sabem desafiá-la com um sorriso no olhar. Uma lição de vida para nós, contentes por ter vindo e vivido a experiência. Os dezoito dólares que todos os meses dávamos à Children International faziam uma diferença no dia-a-dia daquela família e é tão fácil fazer essa diferença...

Padrinhos orgulhosos, ficámos contentes que ela pudesse ir à escola, se inspirasse na poesia e tivesse mais próximo o alcance dos seus sonhos. Sonhos que se tornaram também nossos pela mão que estendemos a Tanima.

8 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Não sou capaz de gostar da Índia. Mas a Índia como sub-continente que é vive mesmo sem a minha atenção. A maior democracia do mundo, em número de pessoas, não é uma democracia porque ao longo de 50 anos de história e de independência pouco me parece ter feito para chegar aos milhões de pobres de que se sustenta. A capacidade que essas multidões têm de não reconhecer a sua condição como um peso contra o qual poderiam rebelar-se, constrange-me. É por isso que não gosto da Índia. Viver emespiritualidade não significa viver em sofrimento.
Esta deve ser a minha última participação no vosso blog. Viajar convosco foi muito bom. Em tudo transpareceu um empenhamento total, um bom gosto bem estruturado e um amor pelas pessoas que me parece muito grande. Sem mais palavras não resisto a quatro estrofes de um poema de que falei numa das minhas primeiras intervenções:
La noche oscura - San Juan de la Cruz
Era una noche oscura,
con ansias en amores inflamada,
(oh dichosa ventura!)
sali sin ser notada, eatando ya mi casa sosegada.

A oscuras e segura,
por la secreta escala disfrazada,
(oh dichosa ventura!)
a oscuras y en celada,
estando ya mi casa sosegada.

En la noche ditosa,
en secreto, que nadia me veia,
ni yo miraba cosa,
sin otra luz ni guia sino la que en el corazón ardia.

Aquesta me guiaba
más cierta que la luz del mediodia,
adonde me esperaba
quien yo bien me sabia,
en parte donde nadie parecia

...............................

Um abraço e um muito obrigada por esta maravilhosa viagem

Jesus

3:58 PM  
Blogger Bluedog said...

Coube-me a sorte de, estando a preparar-me para vos escrever um comment, vos ter encontrado no SKYPE.

Apenas vos quero agora mandar um beijinho muito grande pela maravilhosa viagem que nos têm proporcionado ao longo destes quase 8 meses.

Esse beijinho vai também para a Tanima, a vossa e os outros milhões de Tanimas a quem, de algum modo, podemos ajudar a dar sentido à palavra Esperança.

Vocês já o fazem...

4:28 PM  
Blogger Mimi said...

O vosso texto comoveu-me... a Tanima poderá ter uma vida um pouco melhor graças a pessoas como vocês. Bem hajam!
Já o disse, vou sentir falta dos vossos textos :(

4:47 PM  
Blogger GoncaloCV said...

quem é que um gajo tem de subornar para ser o primeiro a deixar um comment?

5:23 PM  
Blogger GoncaloCV said...

This comment has been removed by a blog administrator.

5:31 PM  
Blogger GoncaloCV said...

comovido

5:31 PM  
Blogger Bluedog said...

Engraçado, como sempre, meu caro G!

Jocas

11:28 AM  
Anonymous Anonymous said...

Ontem tinha escrito um comentário mas não ficou registado; não consegui repetí-lo e saí do blog. E permanecia neste estado inquietante de sentir que está tão próxima a vossa chegada que não me contenho e não consigo pensar em mais nada - a não ser na minha Camilinha que gostava que ainda fosse ao aeroporto no seu aquário... O tomás já sabe quem vem no domingo: a pipa e o xoão.
Mas não resisto a vir aqui e reparo que têm mais dois textos.
E os aguaceiros lá de fora espelham-se nos meus olhos e mal consigo ler as palavras da história de Tamina.
Estou sedenta da vossa presença e companhia mas já estou cheia de saudades destes dois viajantes que me proporcionaram momentos de deslumbramento.

Até amanhã!

laguirmãs

11:43 AM  

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