Tuesday, November 14, 2006
As cicatrizes de Phnom Penh
Com hora e meia de avião, atravessamos de novo fronteiras e aterramos em Phnom Penh. Contrastante com o Vietname, o Camboja, assente nos mesmos verdes tropicais, recebe-nos no entanto com vestes tingidas de pobreza e vincos profundos de uma guerra recente.Instalámo-nos numa antiga casa colonial, com vista para o grande Palácio Real e para os monges budistas que por ali passavam nas suas distintas túnicas laranja, vindos dos templo nos arredores. Sentimos naquela primeira tarde a beleza da cidade, agradavelmente refrescada pela marginal à beira rio. Mas cedo passámos do brilho desse hall de entrada ao triste mendigar da pobreza, olhares pedintes que nos conduziram depois ao sotão de Phnom Phen onde se esconde um passado aterrador de 4 anos de genocídio. Uma guerra civil que, passados já 27 anos, ainda assombra os cambojanos, com famílias desfeitas pela morte bélica e com corpos mutilados dos que, sobrevivendo ao assassínio em massa de Pol Pot, foram apanhados por uma das muitas minas plantadas na terra para espalhar terror muito para além da guerra.
Pol Pot ... um homem que aprendemos a temer, só de ouvir o nome. Um Hitler na Ásia que ao conquistar a liderança do Camboja, em 1975, quis implementar um sistema comunitário agrícola à imagem do ideal maoísta, cego aos sinais de fracasso na China mesmo ali ao lado.
Com uma insensibilidade brutal, Pol Pot planeou uma sociedade de escravos agrícolas, corpos desprovidos de espírito e consciência, formados para trabalhar o campo e respeitar o líder, sem força ou capacidade para qualquer tipo de oposição. Tudo pela nação, ou pela loucura de um homem.
E qual loucura demoníaca, o plano assentava em medidas drásticas que levaram a um suceder de tortura e morte diárias, sobre todo e qualquer suspeito de constituir ameaça para Pol Pot e o seu regime, Khmer Rouge. Num processo de fecho do país ao mundo, assente na autosuficiência agrícola controlada pelas comunidades rurais, Pol Pot perseguiu os membros e associados ao antigo grupo governante, estrangeiros ou com descendência de estrangeiros, e todos com qualquer indício de educação e abertura de espírito, podendo um simples par de óculos denunciar hábitos de leitura e marcar o destino do seu dono. Uma sentença de morte para a classe instruída no Camboja, com efeitos transversais a toda a família, não fossem mais tarde nascer sentimentos de vingança entre orfãos, viúvos ou viúvas.Famílias inteiras sob mira de uma morte forçada, apenas por saberem ler já nos meados da década de setenta ... uma perseguição que se cifrou numa estatistica aterradora. Com mais de 2 milhões de mortos, o Camboja perdeu em quatro anos cerca de um quarto da sua população.
Fomos visitar Tuol Sleng, a antiga prisão de segurança S-21, criada no espaço de uma escola, com salas de aula transformadas em salas de tortura, abafando choros de dor onde anteriormente moravam risos divertidos de crianças. Estima-se que aqui se mataram 12.000 pessoas, entre mulheres, homens e crianças. Nas salas exibem-se retratos dos prisioneiros, tirados à chegada da prisão, numa condenação crua deste genocídio. Salas de tortura expostas ao nosso olhar, forçando a reflectir sobre a crueldade humana e a insensatez da guerra. Lá fora, no pátio, catorze campas erguidas para os catorze prisioneiros encontrados após a queda do regime, na S-21 ... mas já sem vida.O silêncio impera naquela visita ao museu Tuol Sleng. Olhares tristes perante os olhares de pânico captados nas fotografias que dão vida aos seus gritos mudos, num prenúncio de morte anunciada.
A S-21 é uma lição para as gerações futuras, o choque necessário para a consciência de uma guerra. Não há justificação ou perdão possível para a morte de um quarto da população. Não há justificação para a guerra ...
E também uma lição é o livro da Loung Ung. "First they killed my father" é o testemunho de guerra de uma criança de cinco anos, a idade que a autora tinha quando o pesadelo começou. Uma história de sobrevivência, no trabalho dos campos agrícolas, escondendo um passado de educação e obrigando-se a um crescimento precoce por entre os caminhos tortuosos da fome, da dor e do medo que desafiavam a sua vida a cada dia. Passando pela perda dos pais e de dois dos seus seis irmãos, Loung conheceu o ódio precocemente, nas suas declinações mais profundas. Hoje nos EUA, depois de ter passado por vários campos de refugiados, Loung conseguiu libertar-se desse ódio, publicando a sua história num livro e seguindo em frente por um futuro melhor.
Como ela, o Camboja saiu da guerra num estado difícil de ultrapassar, com sobreviventes esfomeados, doentes sem médicos, incultos sem escolas e um número crescente de mutilados sorteados pelas minas abandonadas.
E vinte e sete anos passados, as cicatrizes ainda são visíveis. Com uma abertura ao turismo pelas mãos do passado grandioso de Angkor, o Camboja ainda é feito de um povo que sobrevive mais do que vive.
Ainda permanece o grande desafio de olhar para a frente, aprendendo do passado o que não se deve repetir. Fazer como a Loung Ung. Libertar as memórias e os ódios e lutar de novo ... não numa guerra mas por um futuro melhor.Viajem connosco por aqui ...


9 Comments:
(...) esperemos que eles possam voar também.
Esta é a última legenda das fotos, que confere uma imagem poética à conclusão de profética esperança com que terminam o texto.
Simplesmente brilhante; sinto-me presa nas palavras: não quero repetir-me nas minhas expressividades das viagens que faço através dos vossos olhos e espírito.
Emocionada em tons alaranjados, gostei muito do requinte sumptuoso de outrora, da imagem oriental de uma Pepa - muita gira a camisa... - que continua a cometer gafes ocidentais - eh,eh,eh. E o john Wildbarbicha de melenas rebeldes, também parece que já está a precisar de vir aqui conhecer o conceito do metrosexual...
É só a brincar, para ver se vocês vêm...
Não consegui falar convosco mas, como vêem, FUI A PRIMEIRA A COMENTAR!!!!
Estou muito assídua e sempre a comentar...sempre, sempre...
Irmanita
Pois que sim que gostei do relate do tour a Phnom Phen (ou lá o que é) e gostei de vos ver firmes e hirtes.
Tenho saudades de vos ver e abraçar (pronto, aqui está o meu lado lamechas)
Bjs aos dois e vejam lá se se despacham mas é ...
O Horror de um modo geral deixa-me em estado de completo silêncio, pois não quero acreditar que o Absurdo que a ele conduz possa alguma vez ter prevalecido ( e contudo...). Que o espírito desses meninos possa um dia ser o testemunho disso mesmo, de que o Mal não pode vencer, Nunca !
Beijinho grande
Very good the text!!
e quem é que tirou o crápula de lá?? QUEM, QUEM??? O VIETNAAAAAAM!!!!
THE NAM RULES!!!!!!
Bomdia e boa saude,Acabo de ler a vossa ultima descrição sobre a vossa passagem pelo CAMBOJA, está formidavel e brevemente teremos a oportunidade de ouvir novos comentarios de viva voz,pois o dia 10 de DEZEMBRO está a chegar.
Logo que possam gostaria de ouvir a vossa voz mesmo que seja por telemovel.
Um beijo e um grande abraço dos vossos avós
G e G
Já ninguém fala de outra coisa:
A VOSSA CHEGADA!!!
Pois é, estamos todos a contar os dias, as horas.. Falta tão pouco :)
Vamos ser muitos à espera de um abraço vosso logó à chegada.. 1 abraço do tamanho do Mundo!
ines e rodrigo
Olá queridos
Não gosto muito de escrever em público, mas este texto tocou-me de tal maneira que acho que devo dizer qualquer coisa. A opressão é sempre odiosa e neste caso pior porque era entre gentes da mesma pátria. O horror e o extremínio têm de ser parados e testemunhos como os vossos ajudam a fazê-lo.
Beijos e já estamos em contagem decrescente.
M
Estes relatos magníficos têm de dar um livro!!!
Quando terminarem a viagem vou sentir falta dos vossos textos :(
"Os últimos dias de Saigão" e "As cicatrizes de Phnom Penh" são textos que mostram o vosso empenhamento até ao fim na forma e no conteúdo daquilo que nos transmitem da vossa experiência pessoal. Nos textos e nas fotos apanhamos a magia desses mundos tão longe de nós mas onde a humanidade palpita a um ritmo diferente do nosso mas nem por isso menos denso e menos enriquecedor.
Falam de duas guerras que ensombraram os intervenientes até, no caso do Camboja, aos dias de hoje. É que no Vietnam eles fizeram uma guerra de libertação no Camboja foi uma guerra entre "irmãos", civil e fratricida e parece-me ser isso, a dor deixada por este tipo de guerra, que ainda não "voou".
Mas nós também fizemos uma guerra e o mais impressionante é que poucos querem falar nesse assunto. Ninguém disparou um tiro, ninguém viu um massacre. Tanto silêncio teimoso dá que pensar, quando não se transformam fantasmas em histórias vividas e os andamos a esconder debaixo do tapete fica um vazio que nunca será preenchido. Desculpem este último parágrafo mas eu vivi esse tempo o da "Guerra do Ultramar".
Belos textos. A J
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