Wednesday, November 01, 2006
Os Quatro no Vietname
De novo a bordo de um night train, o nosso destino era desta vez Hanoi. Deixávamos para trás o encanto natural e humano de Sapa e descíamos agora numa estação mais urbana, com mais gente, motas, prédios, mas também cheia de charme.Um charme que soube muito bem dividir a quatro com a chegada do Salvador e do Andrew, numa visita ao Vietname e a nós, por duas semanas.
Chegámos de madrugada a Hanoi, garantindo umas horas de avanço para sentir primeiro a cidade e poder recebê-los em grande.
Viajantes há já meio ano, a nossa casa virou o Mundo pelo que ao marcar encontro com amigos ou família nesta viagem é como se, nesse país, os estivessemos a receber em casa. E por isso queríamos que Hanoi lhes desse as boas vindas tão saborosamente como um primeiro aperitivo ao jantar.
Instalámo-nos no Old Quarter e nem demos tempo ao sono para se fazer notar. Na margem do lago Hoan Kiem, mesmo ali ao lado, corpos de todas as idades já se entregavam ao tai chi com as primeiras espreitadelas do sol. Segurando espadas, leques ou sem qualquer apetrecho, braços e corpos dançavam lado a lado com a suave brisa da aurora, num silêncio espiritual, como que em oração. E nós circundámos o lago, também em silêncio, absorvendo a energia que se libertava no ar deste povo matinal, que recebe o sol já na rua, como que num ritual sagrado para agradecer e iniciar o dia.
Uma esplanada à beira lago, oferecendo croissants e pain au chocolat, perfumava o ar com o requinte francês, perpetuando os aromas de uma antiga Indochina, em paralelo com aquele ritual asiático. Uma combinação perfeita que nos fez prolongar o amanhecer pelo lago, enquanto digeríamos a paisagem, as pessoas, o novo dia.
Com as dicas de duas belgas que viajaram connosco de Sapa, fomos depois à procura do colorido do comércio na zona antiga da cidade onde, qual antiga Rua do Ouro ou Rua dos Retroseiros, as ruas e quarteirões ganhavam tons e formas próprias de acordo com o tipo de produtos à venda. Perseguidos pelas muitas, mas mesmo muitas motas, e sem a protecção dos passeios, convertidos pelas lojas em montras a descoberto, lá encontrámos a rua que nos tinham recomendado. Visível logo à distância, a rua das lanternas de papel vestia-se de um autêntico arco-íris de cor que faria qualquer criança acreditar que era ali a morada do País das Maravilhas. E foi nesse cenário que enchemos a tarde de cor e fotografia, procurando pelo meio um bom restaurante para receber a nova dupla de viajantes, prestes a bater à porta, aqui no Vietname.Com um atraso que parecia não querer passar, lá chegaram, o Andrew e o Salvador, carregados de jet lag, muita vontade de férias e saudades dos nossos pais enviadas à boleia.
Ao jantar, saciámos a fome e as saudades, regressando por momentos a casa com as novidades fresquinhas de Portugal. Mas logo logo o tema passou a ser o Vietname, as grandes férias desejadas. Tínhamos duas semanas à nossa frente, para tentar, a um ritmo mais acelerado do da nossa viagem, aproveitar o máximo.
E o dia seguinte começou cedo com uma visita à Perfume Pagoda, nos arredores da cidade. Muito autocarro, barco e trekking, sob um calor que trespassava a sombra, para finalmente chegarmos à Pagoda, uma gruta convertida em lugar de oração, onde os contornos e os altares foram ditados pela natureza das rochas. Um dia muito preenchido, onde mais do que a Pagoda, o ponto alto da viagem foi o percurso de barco no regresso. Por entre os campos de arrozais, trabalhados na sombra dos tradicionais chapéus em bico, e com o iPod a tocar a música tema do Platoon, sentimos o arrepio de uma guerra que não tínhamos vivido mas que ali nos parecia muito familiar.Depois de um jantar no Tamarind, que rapidamente elegemos o nosso preferido, acabávamos a noite na rua, numa esplanada roubada ao passeio, das poucas que se deixavam arrastar para lá das dez e meia, hora de fecho de quase tudo por aqui no 'Nam.
Já com o bioritmo vietnamita, acordámos de novo com o amanhecer para um passeio de três dias e duas noites, à descoberta de Halong Bay. Um mini cruzeiro navegando a baía, por entre os seus mais de mil morros a rasgar o mar, onde saboreámos o tempo entre mergulhos, muitos mergulhos, passeios de kayak e um brinde à viagem, com o entardecer, gozando a vista do topo do barco num cenário cinematográfico de encher o olhar.
Com uma noite dormida a bordo do nosso imponente galeão, na outra voltámos a terra, a Cat Ba, uma das poucas ilhas habitadas em Halong Bay. E com vontade de tempo sem horas contadas ao segundo, libertámo-nos do guia e do plano do tour, fugindo de mota à descoberta da ilha. Orientados pelo mar, quase sempre ao nosso lado, seguimos pelos arrozais, cruzámos o parque natural e descobrimos uma praia deserta, sem cadeirinhas, vendedores ambulantes ou turistas aos magotes. Estávamos só nós, um areal por estrear ... e um misterioso velho do mar que apareceu do meio da vegetação, de cajado na mão, gesticulando e falando em vietnamita numa conversa exaltada que traduzimos na seguinte história: "Esta praia é minha! Não podem estar aqui. Não viram que o caminho estava fechado? Bem, se quiserem até podem ficar... mas têm de pagar!". De facto existia uma estreita estradinha e também havia uns ramos à frente . E se a praia até podia não ser dele, o trabalho daquele caminho que nos deixou descer de mota à descoberta da pequena baia, esse até que podia ser obra deste velho de barbas compridas e corpo seco e enrugado. Com uma nota simbólica chegámos a acordo, sem palavras comuns, mas com um mesmo olhar de paz. E desaparecendo de novo por entre a vegetação, tão misteriosamente como tinha aparecido, o velho do mar ganhou para o jantar e nós ganhámos umas horas de mar deserto, enquanto o sol se espreguiçava na água, prestes a mergulhar na noite. Pequenos momentos que enchem o dia; foi com esse sentimento que regressámos ao Hotel, enquanto nos cruzávamos com crianças na rua que sorriam, corriam e acenavam atrás de nós.
No dia seguinte voltávamos ao mar, para a despedida de Halong Bay, com tempo para um último mergulho do barco, desafiando a altura do seu segundo andar.De volta a Hanoi para apanhar comboio em direcção a Hoi An, brindámos aos primeiros dias da viagem, num outro jantar no Tamarind. Estávamos a adorar, os Quatro de mochila às costas pelo 'Nam, numa aventura que ainda nem ia a metade. Nós os dois, ainda mais contentes por tê-los de visita e senti-los bem recebidos nesta nossa casa temporária, aqui, no Vietname.
PS: As fotos... estão para breve :)


13 Comments:
Oi, Filipa!
Que inveja da viagem que tás a fazer!
Eu ando pela Alemanha, agora, vim para cá viver um tempito!
Beijinhos e continuação de boa volta ao mundo!!
NNNNHHHHHHHHHOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! do NHOBIRD!
olá !
as primeiras fotos prometem e o texto é bom, como sempre!
Fico à espera!
Beijos aos dois, ao Salvador e ao Andrew (pronto, está bem, nao o conheço, mas vai um beijo para ele também !).Ricas férias!
constança
muito bom
AAAUUUEEEUUUAAA!!!
NHO NHO NHO!!!
AAUUUEEEUUUAAA!!!!!!!
Como nao se percebe isso no texto (eheheheh): FOI A LOUCURAAAAA!! LÓCURÁÁÁÁ!!!!
QUERO VOLTAR!!!!
I MISS MY AK47!!!!!
Acho que não me poderiam ter sabido melhor estas 2 intensas semanas, onde se juntaram todos os ingredientes para umas férias de sonho, que marcaram e marcarão… Não só pelo o encanto dos lugares e das pessoas (e verdadeiramente mágico é o Nam!!), pelas pequenas histórias que fomos tendo que ainda me fazem sorrir ou pelo conteúdo enriquecedor de todas as coisas que fomos fazendo, mas acima de tudo por as ter passado com best friends, o que adocicou ainda mais a experiência, e de que maneira. Há que dizer que percebi que é preciso um estofo muito próprio para fazer uma viagem a 2 como a vossa e que não encontro par mais adequado – não só às exigências da viagem mas também um ao outro. Foi um prazer ver que estão bem e que assim continuarão por muito mais tempo, quaisquer que sejam as novas aventuras que aí vierem (agora que está a 1 mês de acabar).
Gayzadas à parte, resta-me agradecer “Vietnam style”: CÁM ÓN!!!!!
COMPANHIAAAA!! SENTIDOOOOO!!! AAAAUUUUUUUUPPPPPPPP!!!!!!
Após os textos sobre a China e sobre o Vietnam e a leitura dos respectivos comments dei por mim a pensar: bocadinho do melhor da China, bocadinho do melhor no Vietnam, boa pitada das aquisições ocidentais: direitos humanos, liberdade de expressão e como nisto de cozinhados cada um pode adaptá-los com um ingrediente ou outro que entre si colem bem não conseguiriamos uma globalização à medida de todos? Se alguém pensar que estou a sonhar informo desde já que eu sei que estou a sonhar. Mas ... o sonho comanda a vida lá diz o poeta cuja formação até era na área das ciências positivas.
Abraços da Jesus até à India onde agora já se encontram.
Adorei a aventura dos "Quatro no 'Nam". Também queria...
Mas ainda quero mais que cheguem.
Venham lá!...
la ermnana embaraçada
entao o salvador nao deixou crescer uma barba?
ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Depois de ler o vosso maravilhoso texto sobre o VITENAME,até dá vontade de voar para lá para vivermos as mesma peripecias relatadas por vós.
Este paiz em evolução deve ser fantastico e ainda por cima é possivel estar em praias sem a presença de terceiros,até parece a praia de CABANAS 25 anos atras.
Continuo a aguardar novos relatos e entretanto um beijo e boa desposição são os desejos dos vossos avós
G e G
Boa sorte para o seu viagem...
Enão e eu não digo nada ???? Nunca pensei que um dia pudesse imaginar apetecer-me ter umas férias no Vietnam ( decerto efeitos geracionais, como muito bem refere BM )mas vocês conseguiram. Magic, magic !
Muitos beijinhos, já para a Índia, o Ganges e tutti quanti !
Gandas malucos!!! 8 meses a dar a volta ao mundo… se ainda fosse 5…
Comecemos do início: vocês não me conhecem, cheguei ao vosso blog por indicação de um amigo, que como a maior parte dos vossos fãs apenas a sonhar acordado partirá para aventura destas.
Já eu sou dos que quando prometo faço. Também eu parei para viajar e parti em Abril passado entregando-me à paixão de viajar e conhecer o mundo, numa viagem também ela interior, na vontade de viverem momentos que não se embalam em pacotes ou ofertas promocionais, com o tempo que é preciso para mais do que arranhar a superfície do mundo, e com o mesmo desejo de tornar a vida inesquecível, no limitado tempo que nos é concedido senti-la fazendo dias de passeio, sem guias e sem escala, muitas vezes apenas com um mapa duvidoso nas mãos ou sem cobertura de um guia à procura da tal experiência “autêntica”.
Mas chega de plágio.
A mensagem que vos queria deixar é que, com o que vocês me deram a ler, revivi a minha viagem.
O meu sincero obrigado.
Convido-vos a visitar o meu blog (http://pedrojacquet.blogspot.com)e rever vista para o Pão-de-Açúcar by night e de "La Chascona", voltar a partilhar conversas e sanduíches com os moais, a nadar com tubarões em Moorea ou rever o rebentar das ondas em Bondi Beach. Mas devo-vos avisar, não esperem a mesma eloquência com que vocês temperam o vosso…
Amigos,
Como é bom ver as vossas fotos e textos.
Tenho pena de não estar aí mas ao menos aproveito as imagens e dou asas à minha imaginação... Dá sempre para viajar um bocadinho, nem que seja em sonhos!
Já agora voltem rápido que tenho saudades.
Muitos Beijinhos
Marta (a ex carioca)
P.S. Aproveitei e até matei saudades do Rio e de Buenos Aires...
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