Saturday, September 23, 2006
Welcome to Beijing
Parece, talvez, será que? ... a incerteza instala-se na nossa chegada à Ásia. Tão implacável quanto uma Grande Muralha de pedra, o mandarim, combinando-se entre 10.000 caracteres distintos, tece uma autêntica cortina de ferro que nos barra logo à chegada ... welcome to Beijing ... será?À saída do aeroporto, o taxi é o primeiro desafio a ultrapassar; muitos, muitos chineses aproximam-se de nós, atraídos por algo que não conseguimos ocultar: o exotismo de ser europeu, anunciando oportunidade de negócio. A suspeita assola-nos em cada abordagem por percebermos muito pouco do que nos tentam dizer. E irremediavelmente acabamos por cair num dos seus muitos esquemas montados para dar as boas vindas ao turista, pagando um valor acima do normal.
Ia ser difícil, mas nem por isso menos fascinante, e por isso rapidamente afastamos ressentimentos. Com a mudança drástica de temperatura, um banho refrescante parecia ser a melhor forma de iniciarmos a adaptação ao nosso mês na China. Isso e a compra de um Phrase Book de mandarim que se tornou no nosso pequeno grande companheiro.
E saímos de novo, para a rua, para o mandarim, para um povo de olhos rasgados e tez amarelada, que sob o calor húmido da cidade, nos observava ao passar.
Beijing recebia-nos no meio de uma remodelação. Andaimes e tapumes por todo o lado denunciavam uma cidade em obras, um renascer encomendado para os Jogos Olimpicos de 2008. E com dois anos ainda pela frente sentia-se já a pressão, um empenho frenético para o grande evento anunciado com o pó a elevar-se no ar e a intensificavar a bruma que, como um véu, cobria a cidade.
Começamos por procurar o passado imperial da China visitando a Cidade Proibida, o Templo do Céu e o Palácio de Verão. Apesar de alguns edifícios em restauro, quase que revimos O Último Imperador de Bernardo Bertolucci, sentindo a solenidade dos espaços e a ilusão de se viver num cenário mágico, impermeável ao mundo imperfeito ali mesmo ao lado.Procuramos depois as rugas desse mundo imperfeito, por entre as ruelas da cidade, e fomos dar aos hutongs, bairros antigos com uma arquitectura caótica mas de traço asiático, onde se aglutinam casas, lojas, bicicletas e muita, muita gente. Deixámo-nos perder por caminhos labirínticos, sentindo a vibração deste povo que parece não dormir e estar sempre a correr para algum lado. Uma adrenalina contrastante com imagens quase estáticas dos mais velhos, jogando majong, xadrez ou cartas na rua, imunes ao calor e ao passar do tempo.
Por fim tropeçámos num fervilhar capitalista, nas ruas modernas da cidade, onde o ocidente conquistou espaço com as suas marcas, os seus luxos, atiçando o vício consumista daqueles que podem comprar e dos outros tantos que só podem sonhar. Arranha-céus, neons, McDonalds, neutralizariam por completo o espaço não fossem os caracteres e o olhar rasgado que nos faziam ainda acreditar que estavamos na China.
Um avançar do moderno que tem levado à morte forçada de alguns hutongs, numa nova investida de desprezo pela herança cultural, qual Revolução Cultural de Mao.
Seis dias em Beijing para irmos identificando lentamente os contrastes neste país; país que mantém uma fachada comunista mas que experimentou o capitalismo e como que uma droga já não o consegue evitar. Uma classe média parece crescer e alimentar esta fome pelo exterior, encenando uma China mais moderna, longe da imagem rural que dela tinhamos. Contudo vigiada à distância pelos muitos polícias na rua que olham, escutam, reportam ...
Omnipresente, Mao parece imune a esta evolução e vive de mãos dadas com a influência do ocidente. 70/30 é a proporção que a propaganda partidária ditou entre o que de bem e mal Mao fez na China. Talvez fosse mais o contrário mas, mesmo assim, embalsamado na praça Tianamen, Mao Tse Tung é visitado diariamente por milhares de chineses que, em romaria, esperam horas numa fila a descoberto para uns breves segundos de observação. Para prestar homenagem, rogar pragas ou simplesmente curiosidade, isso é que já não conseguimos perceber; mas ele lá está, em lugar de destaque, homenageado pelo partido, não certos que pelo povo.Posters, medalhas, bandeirinhas, relógios, as próprias notas do país ... o ícone da ditadura comunista da China é usado e abusado numa inesgotável criação de merchandising, dando ironicamente a cara a uma realidade que tanto se esforçou por oprimir.
E no meio de todos estes contrastes fomos construíndo uma amizade com a cidade; as suas ruas e avenidas largas atenuavam a sensação de claustrofobia humana e as muitas árvores que se alinhavam por entre os bairros da capital procuravam energizar o ar pesado e poluído à volta, assim como servir-nos de apetecida sombra, naqueles dias de intenso calor. Sentimo-nos seguros pelas ruas, sempre acompanhados por muita gente, e aos poucos fomos conquistando o sorriso de alguns locais, reagindo às nossas frases arranhando a sua língua, num esforço de leitura tonal do livrinho de mandarim.
Na última noite, passeando por um dos hutongs da cidade, descobrimos uma zona de esplanadas ao ar livre, que convidava a um jantar à beira rio.
À despedida, gozavamos aquele ambiente com carácter e desejávamos que este hutong fosse um sobrevivente à investida neutralizadora dos arranha-céus. Sob o ar quente que se prolongava pela noite fora, ali estavamos, lado a lado com uma classe chinesa que mostrava viver a vida e não apenas a sobreviver à fome. Minoria? Talvez ainda, mas acima de tudo um sentimento de mudança.
E é a mudanca que predomina, como o estado de alma da cidade, talvez do país. Um filme a tempo real onde vivemos seis dias de descoberta, fascínio e alguma apreensão. Qual vai ser o equilíbrio entre as tradições e a sede pela modernização? Não sabemos. Mas o filme está a rodar e em 2008 a China fez um convite ao mundo, e estenderá o tapete vermelho às portas da sua muralha ... welcome to Beijing.Vejam as fotos por aqui ...


11 Comments:
Depois de desligar o SKIPE da conversa interessante e muito agradavel que tive convocês, fui direitinho ao vosso blogue, que ainda não apresentava as fotografias de fundo mas consegui ver aquelas que tiraram na praça de Tianamen e seguintes
Tanto tu como a Pepa estão optimos e tiveram a sorte de terem apanhado um dia cheio de sol.
Quando estava a ver as vossas fotos da Pequim toca o Skipe e apareceu o tio Nuno entretanto e quando lhe comuniquei que tinha estado á conversa convosco ele tentou ligar para vocês,mas o vosso skipe já estava offline.
Disse lhe que o motivo do vosso desaparecimento devia ser devido a compromissos para ires buscar um fato que mandaste fazer ai no Vitename,oa ouvir isto,começou a rir e observou que a vossa chegada o obrigaria a mudar de indumentaria
Bem agora vou continuar a ver o vosso blogue e entretanto um beijo e am abraço dos vossos avos
G e G
Isto assim não tem graça, qualquer dia não se pode ir a lado nenhum, onde tenham passado, sem ter a sensação do "déjà vu", tão bem parecem descrever o que de mais fascinante há nos locais por onde viajam.
Muitos beijinhos, sem horários para vos encontrar no msn ou skype.
É a velha historia: será que a modernidade ñ nos torna todos iguais.. Até que ponto se consegue chegar a um equilibrio sem destruir tudo á nossa volta.. Será que com isto estamos a evoluir?
Estou mortinha por ler o resto da historia..
Bjos mil
I&R
Ai que saudades eu tinha de me deixar fluir nas vossas palavras enfeitiçantes e de mergulhar nas imagens enebriantes de um lugar...
Brilhante, mais uma vez, a composição estruturada de um pensamento abrangente, que nos projecta no local e faz-nos saber um pouco mais dessa realidade distante e quase impenetrável de olhos em bico.
As fotografias revelam, no tom acizentado, o misticismo reservado desse povo e a beleza da felicidade transparente desses viajantes que servem de interlocutores de lugares mundanos.
Tantas saudades....
La Ermana
do caneco!
bjs G!
La Ermana escreve cada vez melhor !!!! Ò prazer de ler...
Estao muito bem nessas fotos.
Beijos e abracos,
Duarte
Conseguiram que até o Du escrevesse. Parabens.
Temos todos muitas saudades, mas a converseta no MSG consegue atenuar um pouco. Boa viagem para o Camboja e por favor não atirem ás vacas
Beijos
M
João: só agora me paercebi do alfaiate. Se já estiverem no Cambodja, regressem ao Vietnam e mandem fazer quatro fatos e dois casacos para mim e exijam desconto de quantidade; melhor, talvez no Cambodja consigam mais barato, seus lorpas que vão comprar fatos caríssimos ao Vietnam
Continuo a seguir as vossas aventuras muito atentamente. Obrigada por nos levarem a passear convosco e a sonhar em futuros destinos!
Estive em Pequim em 1998 e considero-a a mais fascinante cidade onde já estive. Exotismo, história, modernidade, culinária, cultura. É sem dúvida uma mega-metrópole preparada para brevemente se assumir como capital mundial.
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