Sunday, July 09, 2006
Sucre, Alentejo
Chegávamos de noite a Sucre. Luzes a toda a volta decoravam esta cidade, recostada num vale, como se fosse um presépio. A uma altitude bastante mais baixa, pouco acima dos 2.000 mts, o ar ja circulava mais quente, recebendo-nos sem arrepios. E à nossa espera um hotel cheio de charme com patiozinhos interiores, anunciando manhas e fins de tarde ao sol, como há algum tempo nao tínhamos.Ao acordar do dia seguinte, confirmámos as nossas expectativas. Apenas de t-shirt, sob um céu azul turqueza, saboreávamos o pequeno almoco num dos pátios daquele pequeno hotel, gozando sem pressas o calor do sol sobre a pele. Ficámos à conversa com um casal de franceses, da nossa idade, que também se tinha entregue a uma viagem longa como a nossa. Países diferentes mas o mesmo desejo de tornar a vida inesquecível, no limitado tempo que nos é concedido senti-la.
Já sem a iluminacao da noite, Sucre mantinha-se luminosa, pois as suas ruas faziam-se de branco, com todas as casas caiadas e bem cuidadas, nao obstante a antiguidade colonial que lhes marcava o traco das fachadas. Ao contrario de Potosi, Sucre ostentava bem estar, num aprumo que se estendia às gentes locais, visivelmente com maior riqueza.
E sinal da sua importancia, Sucre ainda hoje é considerada a capital constitucional da Bolivia, nao tivesse esta cidade alva acolhido os únicos principes do país. Uma história bonita que ouvimos contar na visita ao palácio real, Vila Francisco Argandona: finais séc.XIX, um casal sucreno, muito rico, sem filhos, mas com uma enorme vontade de partilhar. Uma vontade que se transformou no acolhimento de criancas orfas, dando azo a um projecto que, de tao grande, erigiu dois orfanatos. Foram muitas as criancas que recuperaram afecto e o sentido de pertenca, de tal forma que o casal Argandona foi chamado ao Vaticano para que o Papa lhes concedesse o título de principes. Sem brazoes ou o dito sangue azul, mas por um amor nobre e genuíno pelos filhos abandonados da cidade.Hoje, sem descendencia, o palácio está em recuperacao, controlada pelo Estado, depois de 70 anos abandonado, após a morte da Sra. Argandona. As suas paredes e jardins ainda denunciam o fausto que ali se viveu, mas jaá sem a energia e o sorriso das criancas que outrora tiveram a felicidade de poder abrigar. Mas o projecto, esse permanece vivo, já que um dos orfanatos ainda continua a acolher criancas, bem no coracao da cidade.
Sucre, serena, convidava-nos a passeá-la sem pressas, pelo que ainda visitámos o Convento da Recoleta, subimos as torres da Igreja San Filipe Neri ao por do sol e brindámos, com Pisco Sour, nalguns bares da cidade.Por ruas estreitas de pedra, subimos ainda ao seu miradouro e lá encontramos aquele que seria o nosso pouso preferido na cidade. Sucre estendia-se como um lencol branco à nossa frente e nós, também estendidos, em espreguicadeiras, deixávamo-nos hipnotizar pela calma da cidade ao fundo e, como que suspensos no tempo, ali ficávamos a saborear pasta fresca com nozes, preparada no momento, digerindo momentos únicos da nossa viagem que aquele ambiente fazia reanimar. Ali estivemos às primeiras horas da manha e ali vimos as luzes da cidade despertarem com o anoitecer, desenhando o mesmo presépio que nos recebera à chegada.
Aqui sentimo-nos em casa, talvez porque as ruas de pedra e casas caiadas de branco, numa terra que respira tranquilidade, nos transportassem para as paisagens do alentejo, tao próximas de nós.Tao longe e tao perto ...
Para verem as fotos de Sucre e Potosi, cliquem aqui


11 Comments:
Não há ninguém que leia este texto e não fique com vontade de ir a Sucre, vivê-la do mesmo modo que a Pêpa e o João a sentiram. Serei de certa forma um "sucreño", mas a serenidade que emana das vossas palavra é tal que ficamos todos em Sucre, suspensos no tempo, acolhidos pelos Príncipes Argandona.
Lisboa, 10 Julho
passou a estar no meu roteiro...
Não consigo deixar de escrever uma mensagem neste voso último texto. Às vezes receio ser repetitiva mas aquilo que me oferecem para comentar tem sempre uma faceta nova que me atrai. Hoje é o Alentejo.
Nasci lá, numa dessas pequenas vilas, agora já cidade, em que os dias eram mais longos, as distâncias muito grandes e o desejo de conhecer o que estava para além era enorme.
Quando lá regresso a calma que se respira é um bálsamo mas as distâncias, ainda me parecem, muito grandes para os que lá ficaram. Até quando a limpeza, a ordem e o branco nos inundarão quando lá chegamos? Será que encurtar distâncias obriga a grandes perdas?
Continuação de Boa Viagem, agora que devem estar no meio do Pacífico. Um abraço da J
Estás linda na foto, filipa!! :D
Mil beijinhos aos dois, cheios de saudades!!!
I&R
É hoje que vamos ver o site do João (Barba?)e da Filipa (Pêpa?)! Mas 1º há que dar o jantar ao feijão, regar o jardim, limpar a c dos cães, fazer o jantar, jantar, arrumar a cozinha, ir ao continente on-line, pagar umas contas pela Internet, atender o telefone que já tocou umas 4 x... Eram os nossos pais (e que por sinal mandam beijinhos e abraços)... Já é meia noite e meia... vamos dormir, vemos o site amanhã... E assim se passam uns indesculpáveis 2 meses sem vos "ler" nem dar noticias nossas. Foram precisas umas férias para pararparalereescrever (estamos em Puerto Cuevo, perto de Milfuentes, nas Caraíbas Portuguesas). Não temos palavras para a vossa escrita, nem para as fotos...e muito menos para a vossa viagem interior. Por cá tudo na mesma, ou pelo menos não se nota a diferença. Sabem que as plantas nos vasos crescem mais devagar...Aquele. Duarte, Xana e Feijão ( e Uva, Roca e Goa)
...tão longe e tão perto...nunca mais passei na Estrêla...e é nos momentos como este, em que o calor da cidade e da casa me põe a pé às cinco da manhã, que olho e não vejo, só sinto a vossa ausência, tão longe, porque muito perto...certo porém de que a vossa Marcha nos aproxima ainda mais.
A descrição deste destino sugere-me o deleite com que uma calda de açúcar escorrega e lentamente cobre um bolo, como se se tratasse de lava a escorrer, já longe da cratera do vulcão, e com uma certa densidade...sem pressa...
Amei o repouso sobre o presépio e o espaço no tempo para recordar os momentos únicos que passaram, para reavivá-los.
Esperguicei-me convosco e deixei os meus olhos beberem da emoção que me fizeram sentir e das saudades intensificadas pelo facto de ter estado convosco de manhã a brincar no mensenger, e ter podido partilhar convosco uma hora de gargalhadas e parvoíces, como fazemos sempre que estamos juntos.
Irmã, eu sei que foste tu que escreveste o texto porque (para além de me teres contado esta manhã) falas no patiozinho e não há ninguém que descreva com maior ternura a existência desses pequenos espaços...
E está simplesmente lindo, como tu.
Irmãos, até à próxima paragem.
Claudia
A descrição deste destino sugere-me o deleite com que uma calda de açúcar escorrega e lentamente cobre um bolo, como se se tratasse de lava a escorrer, já longe da cratera do vulcão, e com uma certa densidade...sem pressa...
Amei o repouso sobre o presépio e o espaço no tempo para recordar os momentos únicos que passaram, para reavivá-los.
Esperguicei-me convosco e deixei os meus olhos beberem da emoção que me fizeram sentir e das saudades intensificadas pelo facto de ter estado convosco de manhã a brincar no mensenger, e ter podido partilhar convosco uma hora de gargalhadas e parvoíces, como fazemos sempre que estamos juntos.
Irmã, eu sei que foste tu que escreveste o texto porque (para além de me teres contado esta manhã) falas no patiozinho e não há ninguém que descreva com maior ternura a existência desses pequenos espaços...
E está simplesmente lindo, como tu.
Irmãos, até à próxima paragem.
Claudia
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