Tuesday, June 27, 2006

Passem-me o sal, por favor

Depois do fogo de Atacama, o sal de Uyuni. Do Chile para a Bolívia fomos numa excursão de todo-o-terreno por três dias, atravessando a fronteira dos dois países pelo melhor caminho, o Altiplano. Como tantas vezes acabamos por descobrir, o destino final é apenas uma pequena parte da viagem. Enjoy the ride. A Laguna Blanca, a Laguna Verde e a Laguna Colorado foram algumas das paragens que tornaram curtas as horas por estradas de terra que nos levaram até ao deserto de sal de Uyuni. Lagoas de giz, de cobre, e de algas vermelhas povoadas de flamingos que davam um toque surreal à paisagem, saturando de cor as fotografias e as memórias...

A primeira noite, junto à Laguna Colorado, prometia ser fria, bem fria, um motivo para dar uso aos nossos sacos de cama e aos cachecóis, luvas e gorros que tínhamos comprado em Atacama. Assim passámos a noite, num abrigo de montanha refugiando-nos das temperaturas agrestes, partilhando o mesmo espaço e o mesmo frio com o grupo de dez pessoas que fazia parte da excursão: um casal de suiços, dois alemães, uma coreana, um americano, dois brasileiros e dois portugueses. United Colors, junto à lagoa vermelha.

No segundo dia aproximámo-nos já do Salar, continuando por estradas de terra à descoberta de novas paisagens, os dois jeeps acompanhando-se à distância. Formações rochosas invulgares, ilhas de pedra dispersas pelo altiplano como numa pintura surrealista de céu, deserto e rochas a derreter ao sol, uma paisagem por isso mesmo conhecida como o Deserto de Dali. Pelo caminho, fomos conhecendo a Ana e o Leo, dois brasileiros que nos acompanharam até Uyuni e que haveríamos de rever mais tarde. Conhecemos também um pouco de música bolivana, no estridente charango em que insistia o nosso guia, Carmelo, dando voltas à cassete sem dar tréguas aos nossos ouvidos. Nessa noite adormecemos com as letras melodramáticas em loop na nossa cabeça: "Que triste es mi destino, te quiero y no estas conmigo..." . Blaaargh!

E ao terceiro dia chegámos ao Salar de Uyuni. Factos: um enorme deserto de sal de 12.000 km2 a 3600 metros de altitude, um antigo lago que secou há milhares de anos atrás, onde o sal é explorado comercialmente apenas para consumo interno, e que na época das chuvas fica coberto com dez a vinte centímetros de água, fazendo um espelho perfeito com o céu. Aos nossos olhos, um cenário mágico de azul e branco intensos, cortados apenas pela linha do horizonte. Milhoes e milhoes de toneladas de sal a toda a volta, e nem um prato de bife com batatas fritas para lhe dar uso...

Diga-se que, para além da fantasia da paisagem, não há muito mais para fazer no Salar de Uyuni. Tiramos fotos, passeamos um pouco, seguimos viagem. Mas nem sempre é preciso fazermos alguma coisa para que um lugar nos fique gravado para sempre. Às vezes somos simplesmente personagens secundárias, sobretudo quando nos encontramos frente-a-frente com as grandes paisagens, que estão cá há milhões de anos e existirão muito para além de nós. Talvez existam para nos lembrar que estamos cá de passagem, silenciosamente pedindo para nos vergarmos em oração a um deus desconhecido, uma visão que nos é revelada ocasionalmente nos mistérios do mar, no segredo dos horizontes, e por vezes na luz ofuscante e mágica de um deserto de sal.

Para verem todas as fotos cliquem aqui.

16 Comments:

Blogger Bluedog said...

Mais um texto que me deliciou e me comoveu...

"...Talvez existam para nos lembrar que estamos cá de passagem, silenciosamente pedindo para nos vergarmos em oração a um deus desconhecido, uma visão que nos é revelada ocasionalmente nos mistérios do mar, no segredo dos horizontes, e por vezes na luz ofuscante e mágica de um deserto de sal."

Desde muito novo que tenho esta sensibilidade da vida humana e da sua imensa dignidade, integrada num conceito amplo de VIDA, elemento essencial desta nossa pequena, jovem e fabulosa TERRA.

Os Deuses, esses, ainda não os encontrei mas sinto de algum modo que eles me conhecem...

5:02 PM  
Blogger Bluedog said...

Acabei agora de ver as fotografias: "à couper le souffle"...para quebrar por uma vez a hegemonia anglo-saxónica. Beleza e emoção no seu estado puro !

5:20 PM  
Anonymous Anonymous said...

Há fotografias que parecem de prata tal o brilho que transmitem.
Mas o que mais me encanta é a sensação de que tudo ali ainda não foi tocado pela civilização urbana ... até a palissada de para-choques já foi integrada na pureza original. Um dos comentários fala em Terra (planeta)jovem, pessoalmente desejo que tudo possa ficar intacto por muitos milhares de anos. Só receio que não consigamos manter o nosso tesouro.
Mais uma vez obrigada pelo que nos escrevem e pelas imagens de puro encantamento
Um abraço da J

2:17 PM  
Blogger GoncaloCV said...

qualquer dia isto torna-se um mar de lágrimas com tanta comoção...

muito bem escrito indeed.

na última foto parecem dois sobreviventes do avião que se despenhou noas Andes...ALIVE..

;-)

Besos calientes

4:59 PM  
Blogger Bluedog said...

Os sobreviventes do acidente dos Andes estavam bem menos sorridentes...e mais não adianto, pois poderia haver de facto algumas semelhanças, na sua forma meramente verbal, quanto ao que se seguiu...BEIJOS PARA TODOS !

9:42 PM  
Blogger GoncaloCV said...

bem....asposto que quando viram os helicopteros estavam bem mais sorridentes

12:39 AM  
Blogger Bluedog said...

Tens razão G!, tinha-me esquecido dos helicópteros salvadores, esse acidente ficou célebre porque acabaram "si cômendo uns aos outros"...

8:42 AM  
Anonymous Anonymous said...

Olá Pêpa e joao!



Agora que já tenho acesso â net posso seguir-vos com mais assiduidade.Confesso que me perdi no vosso tajecto argentina chile bolivia chile peru, mas é um prazer reencrontar-vos no imenso deserto de sal, o joao com essa barba fenomenal e a pêpa sempre de sorriso na cara.Respiram felicidade!As vossas fotos estao lindas!(mais uma vez).Já viajei hoje com voces... até breve!
muitos beijos,
constança

1:22 PM  
Anonymous Anonymous said...

Hoje só consegui enfrentar mais um dia de trabalho depois de ver as vossas fotos: molhei os pés na lagoa, brinquei com as crianças no comboio, deslumbrei-me com os flamingos, enterneci-me com a pequena casa do pueblo e respirei o ar seco e frio do deserto. A justiça postuguesa agradece!!

Muitos beijinhos e saudades,

Inês

2:17 PM  
Anonymous Anonymous said...

Caros João e Pêpa( que não conheço...)
Pelas vossas fotografias, lamento informá-los, mas as vossas caras não mentem. Sofrem em adiantado estado de viagite aguda, maleita que afecta (em diferente gradação, bem entendido...) quem apanha o bichinho das grandes viagens (o contágio ocorre nas ditas, de forma ainda desconhecida). As evidências estão todas à vista. O que escrevem, o que fotografam e, principalmente - eu que só conheço o João num contexto profissional - as vossas caras, não enganam. A coisa está lá. O problema é que a doença é crónica, grave, reincidente e só alivia um tudo nada na viagem seguinte. O que em si, se traz uma melhoria é, também, um mal, pois também agrava. Uma gaita, portanto.
O melhor é continuar em viagem. Ad eternium..
Um abraço e disponham
Paulo Gama
ex-jornalista de viagens...

4:20 PM  
Anonymous Anonymous said...

Peço desculpa pelas repetições. O liga-desliga do Safari resultou nisto. Senhor blog administrator corrija esta trapalhada, SFF.
Abraços
PGama

4:24 PM  
Anonymous Anonymous said...

Que me desculpem os positivistas que blogam neste grupo mas isto está feito para positivistas e para sonhadores e quanto a mim os sonhadores têm mais graça. Está-se mesmo a ver que pertenço ao segundo grupo: é que andar a ver o mundo com olhos de pragmático é uma seca.
Bons sonhos acordados para todos

4:56 PM  
Anonymous Anonymous said...

mas..., ao sonhar acordado não está a ser, também, positivista??? (a não ser que seja um pesadelo...). E depois o único pragmático autêntico é o Cavaco presidente. O resto da maltosa é anarco-balda ou coisa que o valha...

5:59 PM  
Anonymous Anonymous said...

...
Um arrepiu que me percorreu a corrente sanguínea e me trouxe de volta à minha secretária e começa agora a mexer as pontas dos meus dedos no teclado...
AHHHHHH!!!!!!!!!
O deslumbre do deserto de sal e a noção da nossa relatividade face à imensidão sublime da Natureza é uma sensação quase contraditória: percebemos a nossa insignificância perante a magnitude mas crescemos com ela ao respirá-la e ao interiorizar tamanha beleza, de olhos fechados.
Mais uma vez me comovo...
Neste momento, o vosso lugar na minha existência é um pequeno altar imaginário,"(...) sem paredes nem tecto(...)", criador de uma energia mágica que me alimenta o espírito, reconhece a essência e confere-me identidade. Apesar de concebido através da mais alta tecnologia, que permite o contacto quase em presença através da combinação do mensenger com câmara e do, já mais arcaico, telefone de fios, revela-me que o prazer do belo existe para além do progresso civilizacional e para além da nossa dimensão temporal: já lá estava, sempre lá esteve e permanecerá para além e indiferentemente à nossa existência.
E mais uma vez o vosso epílogo é brilhante e eu não me atrevo a dizer mais nada.

O tomás continua a acompanhar-vos e já faz festinhas na minha barriga.

11:39 AM  
Anonymous Anonymous said...

ADOREI suas fotos, maravilhosas!!!

2:16 PM  
Anonymous Anonymous said...

... eu também já tive 30 anos, só que ... aproveitei doutra forma, melhor ou pior, não sei, porém vocês fazem-me uma inveja dos diabos !! o que não é bonito ...

... a minha única consolação é que quando voltarem vão sentir um desejo incontrolável de partirem de novo ... e eu não sofrerei desse mal ... aah! aah! aah!, "estão verdes não prestam" ...

Abraços e Beijinhos, façam favor de distribuir com critério ...

Fernando Baptista

6:50 PM  

Post a Comment

<< Home