Saturday, June 17, 2006

On the road to Salta

Há dois meses sem pegar num volante, voltámos a sentir a liberdade de podermos conduzir o nosso destino, alugando um carro para percorrer o caminho entre Tucuman e Salta, no norte argentino. Durante três dias, ditámos os caminhos, as pausas e os desvios, sem horários.

De Tucuman a Salta o caminho das montanhas levou-nos entre curvas e contracurvas por paisagens variadas, alternando entre vales povoados de cactos e vinhas férteis, planícies desertas e prados verdejantes. Ao nosso ritmo, parámos para almoçar na tranquila Tafi del Vale, demorámo-nos nas ruínas de Quilmes, e parámos para dormir em Cafayate, rodeados de imponentes montanhas que as nuvens não se atrevem a passar.

Cafayate, terra de vinhos a quase 3000 metros de altitude, é uma vila de poucas ruas e de traços suaves, bem cuidada, um conjunto de pequenas casas na pradaria. Dava vontade de ficar, mas tínhamos o carro a entregar em Salta. Mesmo as pequenas liberdades têem um preço...

Ficámos no Hotel Killa, um refúgio quente e acolhedor, simpaticamente recebidos pela dona, Martha Chocobar, que nos explicou as origens quechua do nome: Killa, a Lua, o primeiro nome ouvido dessa estranha língua que pelo altiplano andino muitos insistem em manter, tradição viva de um tempo anterior à conquista espanhola.

Descendo de Cafayate para Salta, muitas paragens ao longo da Quebrada de Cafayate, percorrendo o asfalto por entre rochedos de vermelho intenso e picos dramáticos, um canyon que parece querer devorar a terra de onde foi arrancado, montanhas cortadas nascidas há muito tempo atrás de uma súbita vontade de se atirarem contra o céu.

Confortavelmente instalados em Salta no Hotel del Antiguo Convento, decidimos ficar com o carro por mais um dia, para percorrer ainda mais norte por estradas de montanha. De sol a sol, visitámos o pueblo de Purmamarca, o cerro de los Siete Colores, a Quebrada de Humahuaca e as Salinas Grandes, versão argentina do Salar de Uyuni que ainda estava para vir. A sensação no deserto de sal, a 4000 metros de altitude, era de que não pertencíamos ali, àquela visão estranha, totalmente branca, rodeados de demasiada luz, demasiado calor, e pouco oxigénio para tanta paisagem. De tirar o fôlego, literalmente.
No regresso, descendo para Salta, obrigámos o nosso Chevrolet três portas a esforços inusitados, surpreendidos com uma estrada que prometia ser apenas má, e foi péssima... Cem quilómetros por terra e gravilha, por vezes areia, por vezes água, um rally em que não nos tínhamos inscrito e que ficámos felizes por ver terminado, já em Salta.

Devolvido o carro, passámos alguns dias passeando por Salta, gozando os confortos da cidade e do hotel para recarregarmos baterias. Descobrimos uma cidade com personalidade e encantos próprios, naturalmente concentrados na praça principal, onde passámos tardes de sol entre o jardim, a Catedral e o Cabildo, antiga casa municipal.

Prestes a despedirmo-nos de Salta e da Argentina, um misto de curiosidade e discreta devoção levou-nos a acompanhar uma peregrinação a Três Cerritos, local onde desde 1996 terão ocorrido aparições de Nossa Senhora a uma devota, Maria Lídia. O culto cresceu, e hoje muitos peregrinos de toda argentina sobem o cerro aos Sábados, para celebrar missa e pedir uma benção a Maria Lídia. Assistimos a relatos pessoais de curas, a devoção profunda nas expressões e nas preces, a benção da devota a provocar desmaios nos abençoados. Mesmo como simples testemunhas, tocou-nos a intensidade da celebração, uma Igreja sem paredes, feita apenas de fé e céu aberto.

Daí partimos, e partimos também de Salta para San Pedro de Atacama, deixando a Argentina sem termos chegado a pedir uma benção para nós, talvez por sentirmos que temos muito mais a agradecer que a pedir.

Para verem as fotos, cliquem aqui.

6 Comments:

Blogger Bluedog said...

Na minha opinião, o mais intenso dos textos de qualidade até agora publicados.

"Igreja sem paredes, feita apenas de fé e céu aberto", aqui está o que poderia ser uma excelente metáfora de um projecto de vida.

No filme "O carteiro de Pablo Neruda" o poeta ensina ao carteiro o que é uma metáfora; agora que andam por terras que foram as suas, podem dedicar-lhe esta, que decerto o comove e surpreende; agradecerá mesmo ao Sol que alguém tenha sabido dizer, talvez melhor do que ele, o que devia ser a condição fraterna de todos os Homens.

10:03 AM  
Anonymous Anonymous said...

Meus queridos, o texto está tão espectacular que nem consigo perceber qual dos dois o escreveu: ou foram os dois ou já assimilaram o que cada um tem de melhor.Tal como o Fernando, extasiei perante a metáfora, que eu denomimaria mesmo de imagem devido à força arrebatadora com que descreve a simplicidade do que deveria ser a vida espiritual de cada um de nós.
A suavidade que conferiram à descrição da viagem, um breve resumo perfumado de imagens, traduz a liberdade que experimentaram em ditar o destino mas emoldurados por pequenas orientações ( no vosso caso concretizadas, pela data da entrega do carro).Um dia pensei que poderia dar uma imagem de liberdade com a expressão "escrever numa folha de papel sem linhas nem margens, mas sem nunca dela sair" e acho que vocês concretizaram-no com a vossa viagem e concretamente com estes três dias.
Agradecer e não pedir é outra pequena sabedoria tão simples e tão preciosa: a última frase - que para mim é o epílogo de todos os textos - é um pensamento que deveria entrar bem fundo dentro de cada um que tenha tido o privilégio de ler o texto.
Para terminar, quando estava e ver as fotografias - que costumo fazer com o tomás ao colo - aparece-me aqui o pinguim e diz " Tia pipa" a apontar para a fotografia em que, de facto, lá estava a tia favorita mas estava tão pequena que eu até me espantei como é que ele reconheceu.(!) Quando aparece o joão, fica igualmente emocionado e espeta o dedo no meu delicado ecrã de computador com placa de LCD mas não consegue dizer ainda "joão"... mas anda a treinar.
Como o sentei ao meu colo, quando quis escrever no blog, ele achou que também o deveria fazer. Assim, depois de o expulsar com muito choro para conseguir escrever, vou deixar ficar a mensagem que ele envia com muito carinho e saudades. E pelos vistos não é a distância que o faz esquecer-se de vocês.
Muitos beijos, abraços, saudades e continuem a brilhar.

Claudia, tiago

6:42 PM  
Anonymous Anonymous said...

afinal, o vosso blog não permite que seja publicado um texto na língua do tomás. Assim, seguiu sem a mensagem do vosso sobrinho: ele queria dizer que continua a gostar muito e que tem saudades

tomás

6:46 PM  
Anonymous Anonymous said...

As últimas impressões de viagem e respectivas imagens são de tal modo fortes que não sinto capacidade para expressar o novelo de ideias que me acodem. Ninguém me obriga a escrever seja o que fôr mas é injusto ser um dos priviligiados com a vossa companhia e não vos referir que ela tem sido surpreendente: as imagens e a fala são tão ricas ...
Ontem comecei a transcrever um poema lindíssimo de San Juan de la Cruz (1542-15691) mas arrependi-me e apaguei tudo. Hoje considero que era muita exaltação para um blog.
1 - Só as nuvens me fizeram pensar que o céu que nos envolve é só um, tudo o resto "Montanhas das sete cores", "Quebradas", "Gargantas" e desertos de sal são a mostra de uma outra dimensão. Há mesmo uma nuvenzinha que acho que num dos dias vos acompanhou de manhã ao pôr do Sol ...
2 - A vossa capacidade de estarem à vontade com os mais velhos a ponto de serem convidados para as festas particulares também me encantou
3 - Eu queria ter andado com vocês no Chevrolet naquela estrada complicada de curvas, terra, água ...
Que a capacidade de dividir com os outros a vossa alegria sempre vos acompanhe. Um abraço da J

12:30 PM  
Anonymous Anonymous said...

Olá Filipa e João,boa saude e disposição para continuarem a vossa encantadora viagem que até este momento,julgo pelas excelentes discrições deve estar a ser um sucesso para vocês.
Ficamos encantados com a vossa ligação de ha dias, e embora não tivessemos o prazer de os ver, ficamos todavia muito satisfeitos pela conversa, principalmente pela relato feito por ambos quanto a tudo que tem observado nessas paragens.
Como te disse,logo que disligamos fui ao vosso blog analisar os vossos ultimos comentarios, e fiquei maravilhado com a prosa apresentada.
Julgo que o autor desta novela é de ambos,por isso chamo a atenção para a falta de sequencia, na apresentação dos proximos capitulos,estas interrupções não são beneficas para o nosso estádo de anciedade, pois cada vez queremos ler novos relatos, principalmente da vossa estadia na Bolivia.
Aguardamos com saudade novas comunicações e até lá um grande beijo dos vossos avós.
G e G

6:56 PM  
Anonymous Anonymous said...

Olá Filipa e João, só hoje conseguimos ver as vossas maravilhosas fotografias de Atacama,não sei porquê,recebemos a descrição da viagem,mas quanto a fotos nikles.
Continuam a descrever a vossa viagem de uma maneira fantastica até parece que estamos convosco a fazer o mesmo precurso.
Desta vez vocès trabalharam bem, por isso daqui vos envio uma medalha e uma menção honrosa para premiar o editor e o compositor,desta narrativa que quando a publicarem,deve causar-vos grande prazer.

Aguardamos as fotos e palavras sobre a estadia vossa na Bolivia e até lá um rande abraço e igual beijo dos vossos avós
G e G

3:22 PM  

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