Wednesday, May 24, 2006

Hotel Argentina

Ao fim de algum tempo num novo país, é habitualmente fácil começarmos a identificar os traços principais dos seus habitantes, talvez o próprio facto de virmos de fora nos dê a distância necessária para nos apercebermos das diferenças e particularidades de um povo. O insuperável espírito positivo dos brasileiros que passa por cima de qualquer crise, a alegria de viver noite adentro dos espanhois ou a inclinação estética dos italianos são traços imediatamente reconhecíveis que, se não resumem toda a identidade de cada uma das nacionalidades, são pelo menos uma parte do que a define como única.

Num auto-retrato sobre a sua propria identidade, Jorge Luis Borges, o celebrado escritor, definiu os argentinos como "italianos que falam castelhano, moram numa casa francesa e gostavam de ser um lorde inglês". Aqui todos são filhos ou netos de imigrantes europeus, e, ao contrário do Brasil, não houve uma mistura com as populações indígenas que fizesse resultar dessa mesma fusão a criação de uma nova identidade, que todos pudessem vestir orgulhosamente sob uma só bandeira. Uma nova Europa construida em solo sul-americano, uma segunda oportunidade de sonhos desalinhados, que sem a assimilação das culturas nativas parece ter resultado numa certa orfandade de identidade, um desencontro de diferentes influências ocidentais.

Talvez por isso um senhor dos seus 60 anos que encontrámos num café, descendente de imigrantes de há três gerações, use a palavra "nós" para se referir aos ingleses e insista para que terceiros o tratem por Mr.Barber. Sintomático é também o facto de muitos descendentes de italianos torcerem ainda pela selecção italiana e andarem orgulhosamente pela cidade com a t-shirt da squadra azzurra, quando há mais de cem anos que nascem em solo argentino...

Visto de fora, parece que a identidade argentina ainda não assentou, não criou raízes apesar dos esforços do Estado pela promoção de um espírito patriótico. Pelas ruas vemos enormes bandeiras da azul-celeste por toda a parte, nos edifícios governamentais e nas principais praças, à meia-noite em ponto toca o hino nacional em todas as rádios, e há até mesmo uma lei que obriga a que em todos os filmes argentinos seja visível, pelo menos numa cena, a bandeira da nação.

Como o definiu um outro pensador argentino, os argentinos são como hóspedes de um hotel, onde estão de passagem, temporariamente, à espera que a sua casa se acabe de construir. Quando há um problema com a manutenção dos elevadores ou com as contas do hotel, não se preocupam, afinal de contas isso são problemas da administração do hotel. Mas enquanto os argentinos não se convencerem que esse hotel é a sua casa, que não há uma outra Argentina - visível ou invísivel - à sua espera, será difícil a Argentina projectar-se definitivamente para a construcção de um futuro comum.

Ao longo de quase três semanas de viagem, fomos descobrindo que os argentinos são bem dispostos e festivos como os espanhóis, de feições e gostos elegantes como os italianos, amantes da gastronomia como os franceses. Mas entre tantos hábitos e costumes herdados da ascendência europeia, torna-se difícil distinguirmos um traço de personalidade único, uma particularidade no modo de ser ou de pensar que seja só, exclusivamente, argentino. Estranhamente, talvez a própria ausência de um traço único seja o que define a identidade argentina.

12 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Olá!
Pois é.. já ñ são 8.30 da manha e eu sou o terceiro comentário :)(sempre gostei do numero 3).
São 11h e o calor que se faz aqui é insuportavel.. pelo menos para quem tem que trabalhar. Deram 29º, mas aqui no centro, parece sempre mais pois não corre aragem.
Querem vir lanchar ao chiado no final do dia? Passam aqui e eu desço, boa?! :) Era tão bom...
Adorei as fotos, o mercado de velharias.. tudo! Hoje á noite esperamos por voces no msger. Espero q possam lá estar. Ontem ñ conseguimos.. Já temos o equipamento necessário :D
Mil beijinhos!!
I & R
PS. O lanche fica adiado mas ñ esquecido!

11:18 AM  
Anonymous Anonymous said...

Bom texto. Uma abraco.

12:16 PM  
Anonymous Anonymous said...

Esta anónima que continua no vosso encalço e que não consegue aí chegar já estava desejosa de um bocadinho mais de prosa a seguir ao La Viruta. Até que enfim chegou. Bem escrito, boa informação (eu fazia lá ideia de como era a sociedade argentina constituida e como isso determinava todo o resto) e sempre as pessoas presentes quer na prosa quer nas fotografias. Vocês são uma dupla de repórteres que não desmerecem os profissionais. Um abraço da anónima do costume

12:50 PM  
Anonymous Anonymous said...

lembrei-me agora... Lembras-te que a t-shirt de Dali que me deste tinha sido tingida?

Nao sei que se passou, mas a tinta saiu, o que significa que esta de novo em boas condicoes.
Beijos e abracos

3:09 PM  
Blogger GoncaloCV said...

Bela descriçao.

No entanto, penso que a identidade Argentina está mais implementada do que a Portuguesa. Talvez não a identidade aliás, talvez seja mais o orgulho. Do que sei, os Argentinos podem não ter um traço comun que os defina, mas têm todos um orgulho incrível relativamente ao seu País.

Adorei as fotos. Podes deixar a barba, tens é que a ir aparando.

Bjs aos dois.
VIVA LA PEPA!
E EL JOHNNY!

4:18 PM  
Blogger Ricardo said...

O vosso texto é bem giro e dá que pensar. No entanto, e se acho que percebo o que dizem, mesmo assim os argentinos foram capazes de criar pelo menos uma manifestação cultural absolutamente distinta e afirmativa internacionalmente. Afinal, o que é o 'tango'?

Ricardo (mas não é o meu homónimo, é o outro - o que usa champôs anti-caspa, deos que nunac falham e cremes de "cuidado intensivo")

6:35 PM  
Blogger Bluedog said...

Mais um argentino português ??? Um português argentino ??? E o tango a bailar com o fado ???? Estranha forma de vida...compañeros de mi vida !

9:33 AM  
Blogger Ricardo said...

Hm!

Ricardo... Hã... Como é que vou explicar... Eu também sou da FEUNL...

3:45 PM  
Blogger Ricardo said...

Hmmm! Como é que vou explicar? Também sou da FEUNL... (mas também da Lever)

Ok, junto fotografia com barba (mas sem caspa)

Ricardo

3:46 PM  
Anonymous Anonymous said...

olá!



gostei muito do texto sobre a argentina, mas partilho a opinião do ricardo: afinal, o tango dá-nos a ideía de só poder vir de um país com um caracter forte e enraizado.Mas Buenos Aires era tb chamada de "Paris da América Latina" não era?Não acham que o caracter cosmopolita da cidade a pode tornar mais virada para o exterior e dar-nos a ilusão de falta de identidade? Ou será que os Aregentinos se fartaram de tanta bandeira?Como é o interior?Muitos beijos!C.

11:14 PM  
Blogger Filipa e João said...

Que bom tantos amigos, tantos Ricardos :)

Ele é o Ricardo Hartman, nosso querido arquitecto que conhece a Pëpa desde pequenina ...

Ele é o Ricardo Pires, pai babado e amigo do Joao

Ele é o Ricardo Francisco, outro pai babado, amigo da Pepa

Ele é o Ricardo Silva, nosso amigo de outra Galáxia :), que para disfarçar gere todo o tipo de produtos de higiene da Lever ...

Gostamos muito que nos acompanhem, muito mesmo, mas agora para vos diferenciar terao de dar um suporte ao Ricardo já que é o nome mais concorrido do nosso blog :)

Muitos beijinhos e abraços!!!

3:29 AM  
Blogger a Mulher de César said...

só hoje li este texto. Partilho, naturalmente, a emoção dos restantes comentadores. É difícil saber de um pais sem identidade. Talvez isso não seja tão perceptível para o argentino como para o viajante, se, como dizem, cada um se apoia em identidades diferentes, estrangeiras, oriundas de um passado já muito longíquo. Devem ser "europeus" congelados no tempo, como já não existem por cá. Percebe-se agora melhor a importância e o drama da ascensão e queda de El Pibe, o apego a Gardel, passado tanto tempo...

Para cúmulo - e esta não é uma nota humorística - sabem que existe um país europeu que reclama a paternidade do tango e onde o tango é a dança nacional? Eu já la estive e pude comprová-lo. Por (muito) estranho que pareça...é a Finlândia. Vá-se lá perceber !!:)

1:44 PM  

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