Friday, June 30, 2006

Potosi, alma mineira

A 4100 metros de altitude, Potosi era a primeira cidade de facto a que chegávamos na Bolívia, depois de termos dormido uma noite em Uyuni, vila de passagem onde tudo parece estar em trânsito para algum lado.

Há quatro séculos atrás, Potosi foi uma das cidades mais ricas do mundo, fruto das riquezas extraídas das suas minas, principalmente de prata, estanho e cobre. Nesses tempos áureos chegou-se a utilizar a expressão "estás como um potosi", para designar um estado de riqueza e prosperidade. Hoje, passados os tempos em que cada golpe de picareta prometia fortunas e uma vida melhor, sente-se nas ruas a humildade de quem já foi rico e foi obrigado a procurar outras soluções, como a última geração de nobres de uma casa falida, as roupas de ouro e prata grandes de mais para as necessidades do dia-a-da... Em Potosi tudo se vende nas ruas, e toda a gente pelas ruas parece ter pouco para vender. Um povo marcadamente indígena, visível nos rostos e nos hábitos, bem longe dos traços europeus de Buenos Aires, numa outra América do Sul mais orgulhosa da sua origem anterior às colónias.

Apesar disso, a cidade mantém vivas as heranças do seu passado colonial, na preservada traça neobarroca das suas imponentes igrejas e edifícios históricos, e na bem presente tradição mineira, que continua a ser a principal actividade de Potosi.

Aproveitámos então para conhecer um pouco mais da realidade mineira, visitando as minas de Cerro Rico, a montanha de onde ainda hoje são extraídas diariamente toneladas de cobre e estanho, depois de já exaustas as minas de prata. Uma montanha que marca a paisagem de Potosi observando a cidade como uma sombra, visível de todas as ruas, presença constante a lembrar riquezas antigas, bem longínquas, e o esforço actual de tantos que decidem seguir a difícil vida de mineiro. Legalmente, é preciso ter doze anos para começar a trabalhar nas minas...apenas doze anos! Para além disso, a esperança média de vida de um mineiro é de cerca de vinte anos desde que começa a sua profissão, devido às difíceis condições, acidentes e inalação de gases nocivos. Uma vida dura, e curta, mas que ainda assim muitos preferem pelo sonho de que um golpe de sorte lhes dê a fortuna que nunca encontrarão em outras partes.

No interior das minas, vestidos a rigor de impermeáveis e capacetes com lanterna, um curto passeio permitiu-nos conhecer brevemente um pouco do dia-a-dia destes homens, e esclarecer um certo mistério quanto à adoração do diabo, um estranho culto de que tínhamos ouvido falar ainda antes de chegar à Bolívia. Na realidade, não há uma adoração do diabo, apesar de haver festas, estátuas e oferendas em sua honra. Mas por trabalharem nas entranhas da terra, os mineiros acreditam estar no território do diabo, prestando-lhe por isso tributo, pedindo que não os castigue e que os deixe sair ileso dos seus domínios... Não há portanto adoração, mas antes um enorme temor e respeito pelo dono das profundezas da terra.

De volta à superfície, aprendemos também como a religião católica, para facilitar a sua propagação, incorporou os cultos locais dos territórios do altiplano, onde imperavam o culto do Sol (Inti) e da Mãe-Terra (Pachamama). Na tradição actual, Nossa Senhora assimilou a figura de Pachamama, como Mãe da terra, sendo por isso comum pelas igrejas da Bolívia, Peru e norte da Argentina ocupar a figura central do altar, deixando para segundo plano a imagem do crucifixo de Jesus.

Nos dias que passámos em Potosi havia festa, e pelas ruas assistimos aos preparativos e ensaios de diferentes universidades, dançando em cortejo até ao dia marcado para as celebrações. Uma outra forma de queima das fitas, uma benção de fim de curso festejada alegremente como um samba, animando as ruas da cidade durante três dias de música e dança. À noite, o frio convidava a procurar refúgio em bons cafés e restaurantes, momentos quentes que encontrámos no Café La Plata e no La Casona. Supreendentemente, no La Casona tivemos uma das melhores refeições da viagem, uma iguaria improvável de encontrar em Potosi, mas que havemos de lembrar por muito tempo: uma fabulosa fondue! Delicatessen.

E assim entrámos pela Bolívia, pé ante pé, medindo os passos enquanto nos habituámos às temperaturas frias e a um povo diferente, mais introvertido e reservado, sempre desconfiado da câmara fotográfica, um povo que talvez se guarde de um estranho como uma mina prefere guardar as suas riquezas para quem as merece.

14 Comments:

Blogger Bluedog said...

Abri o computador e o vosso texto Potosi, imagino que com a alma que só as cidades decadentes sabem ter, a surgir !!! O rei do cobre e do estanho boliviano foi em tempos um certo Sr. Patiño, que até teve uma modesta casa em Portugal - Quinta Patiño - quando os exilados menos pobres deste Mundo procuravam guarida entre nós(propriedade hoje transformada em condomínio de luxo no eixo Cascais/Sintra).Imagino que em Potosi alguns se lembrem dele...Uma mina ser território do Diabo, não me parece tão irreal como isso. Já agora, como se diz diabo na língua de Inti e Pachamama ? Penso que amanhã partem para Santiago do Chile, prestem atenção que o Inglaterra/Portugal é 10h do Perú, é proibido falhar este jogo !
Espero que estejam recuperados da viagem para ICA-oásis e prontos para um Chile que nada deve ter a ver com Atacama, para o bem e para o mal.Se puderem mandem-me uma foto convosco na casa do Pablo Neruda...

5:32 PM  
Blogger Bluedog said...

PORTUGAL !!! PORTUGAL !!! PORTUGAL !!!

2.07.06, uma manhã boa de Domingo, depois das emoções de ontem...a continuar assim têm de aplicar um plano B para os cardíacos...

10:10 AM  
Blogger Bluedog said...

Como é acordar em Santiago do Chile, onde em 1973 caiu Horror ? Os povos renascem deles mesmos e imagino que hoje as pessoas tenham reencontrado o caminho dos dias em que sabe bem estar numa esplanada a ver as pessoas passar, vida à nossa volta e dentro de nós.Beijinho grande

10:14 AM  
Anonymous Anonymous said...

Caro Bluedog,
Para o melhor e para o pior, a dupla Kissinger-Pinochet sabia o que fazia. O Chile é hoje uma potência regional e um player mundial no que ao mercado de vinhos concerne. Com Allende seria uma Cubazinha miserável virada a Pacífico e sem URSS a patrocinar...
os viajantes lá que vejam como é e o que pensam os chilenos...

4:39 PM  
Anonymous Anonymous said...

Neste momento não sei o que mais aprecio: se os textos de viagem da vaquinha Moo, se os textos da vossa viagem. A vaquinha é uma querida, tem uma imaginação muito doce e gosta de tudo o que vê. Se bem que esta ´qualidade esteja dividida com os dois humanos que a acompanham. Ler a história da Moo no Pantanal é quase tão bonito como passar às meias-finais no mundial. E viva Portugal! Olé!Olé!
Abraços da J

5:28 PM  
Anonymous Anonymous said...

Tive que voltar ao blog porque me lembrei que a Moo para além de imaginação, doçura e coração aberto também me parece uma vaqinha muito inteligente. Outra vez a J

6:03 PM  
Blogger Bluedog said...

Caro (a) Anónimo(a)

Como teve a cortesia de me dirigir um "comment", penso que lhe devo dizer o seguinte: se há pessoa que saiba respeitar a opinião do Outro, penso que serei uma delas. Por isso, respeito a sua. Bastar-me-ia saber o que aconteceu às mãos do Vítor Jara para ter uma opinião sobre a dupla Kissinger/Pinochet.

PS: Caso não saiba, o Vítor Jara foi uma espécie de Zeca Afonso chileno.Compunha, tocava viola, cantava.Não matou ninguém, portanto.Tinha um ideal, concorde-se ou não com o mesmo.Acreditava que os homens podiam comungar de um maior sentido de fraternidade. As mãos,essas, foram decepadas no famoso estádio de Santiago do Chile.

9:31 PM  
Anonymous Anonymous said...

Filipa e João,

Apesar de não visitar o blog tantas vezes como as que me lembro, é sempre empolgante ler as vossas aventuras e desventuras!! Para além do imenso talento a escrever e descrever os sítios por onde passam, as fotos são simplesmente espectaculares. Parece mesmo que nós tb estamos lá, a passear com vocês.
Continuem com as vossas descrições das aventuras que nós por aqui temos mesmo é que nos roer...
Bjs e abraços,
Rodrigo Costa Pereira

11:55 PM  
Anonymous Anonymous said...

Ola Joao
so para dizer q este martirio do futebol acabou e que ja podem voltar.
podemos celebrar com umas belas canções do grande Vitor Jara!
um abraço

11:35 PM  
Blogger Bluedog said...

A equipa de Portugal conseguiu ultrapassar os seus limites e o Scolari disse antes do jogo uma frase interessante, "quando se ultrapassam os limites não há mais limites". Tenho orgulho naquela malta, bateram-se até ao fim e o galo francês ia levando uma bicada.Vamos agora esperar pela Alemanha: em minha opinião podemos ganhar e também levar uns cinco...
Que vocês continuem a não ter limites !

1:43 AM  
Anonymous Anonymous said...

hey pepa e joao

o alex se encarregou do post da ilha da pascoa mais ainda nao saiu do rascunho... tips: tongariki, rano raraku, anakena, sete moai, caverna dos ventanas e orongo, com rano kau. O unico lugar onde se paga pra entrar eh orongo, o resto da ilha eh de graca. Alugar um carro ou uma moto faz tudo mais facil, ou ate uma bike, se vcs animam. a gente acampou no minihoa, mas eles tem quartos tb, e mais baratos do que o resto da ilha.

no tahiti, em papeete a gente nao ficou, entao as tips sao de moorea. nao percam o belvedere,uma penada de bike mas vale a pena a vista. se vcs estao com pouca grana, ou querem economizar, aluguem um barquinho e facam um passeio entre as praias do Hibiscus ate Intercontinental. Prestem atencao, pois na baia do Inter, por volta da hora do almoco, eh facil ver os barcos com turistas que vao ver as raias. Da pra fazer isso de graca, sem pagar um tour, e se vcs tiverem sorte, ate uns tubaroes de coral devem aparecer por la. Sao inofensivos, nao se preocupem... Moorea nao tem nada pra se fazer de noite, a menos que vcs queiram gastar muito pra ver a Tiki Village (US$50 por pessoa sem jantar!!)...

divirtam-se e nao esquecam de reconfirmar a hora de seu voo saindo do tahiti!!!

2:02 PM  
Blogger GoncaloCV said...

potosi, ilha mineira........e......

3:14 AM  
Anonymous Anonymous said...

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1:54 PM  
Anonymous Anonymous said...

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6:57 AM  

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