Monday, July 31, 2006

Machu Picchu ao Vivo




Os Incas são uma das civilizações mais fascinantes da história da Humanidade. Pelo menos sempre ouvimos falar disso, mesmo antes de conhecermos a história. Os desenhos animados, Les Merveilleuses Cités D'Or, Tintin et Le Temple du Soleil. Apesar de terem tido uma duração bastante curta, pouco mais de um século, o rápido apogeu dos Incas, a extensão do seu domínio territorial sobre a América do Sul, e sobretudo o manto de lendas e mitos que foi sendo tecido sobre a sua história reservaram-lhe um lugar permanente no clube restrito das grandes civilizações, na companhia ilustre da China, Egipto, Pérsia, Macedónia, Grécia e Roma. Mas o que terão feito os Incas para merecerem tal distinção, para além de sacrificarem jovens ninfas no topo de vulcões?

Enquanto Portugal estava em plena época dos Descobrimentos, fazendo avançar como nunca a arte da navegação, e sobretudo revelando uma vontade indómita e heróica de desafiar os horizontes longínquos para revelar novos mundos ao mundo, os Incas viviam a sua curta história, sem nunca terem aprendido a escrever nem descoberto a roda... Hoje em dia, centenas de milhares de turistas visitam o Machu Picchu, ruínas de um enclave inca nas montanhas do Perú conquistado pelos espanhóis no século XV. Muitos menos visitam certamente o castelo de S.Jorge em Lisboa, bem anterior ao Machu Picchu, e mais bem preservado. Talvez o devessemos arrasar, para dar uma ajuda ao turismo.

Adiante. Se alguém soube criar e manter vivo o mito, foi o Perú, terra nativa dos incas, que hoje preserva a sua herança histórica com o cuidado de não matar a galinha dos ovos de ouro. Resultado, o Perú gere o seu património inca como uma feira de diversões de luxo, maioritariamente na mão de privados. Entrada em Machu Picchu, 25 dolares. Único comboio para lá chegar, 75 dólares no mínimo. Um lugar nas festas do Inti Raymi, 100 dólares. Comboio de Puno para Cusco, 120 dólares. $-Tcha-tching-$! Para cúmulo, o refrigerante nacional chama-se Inka Cola. Sai um Inka fresquinho! Pachacutec, o primeiro rei Inca, deve dar voltas no túmulo.

Machu Picchu, apesar de tudo. Uma das grandes maravilhas da Humanidade, um postal já visto tantas vezes na nossa vida, como o Taj Mahal, a Torre de Pisa, o Coliseu de Roma, Torre Eiffel, o Big Ben, Angkor Kwat, a Muralha da China. Nada a fazer, é preciso vê-los ao vivo.

Às seis e manhã da manhã, o sol estava prestes a nascer. Na verdade já tinha nascido há pouco mais de uma hora, mas os picos a toda a volta do Machu Picchu obrigam o sol a demorar-se um pouco mais antes de banhar o santuário inca de luz. O ar puro da alta montanha entrava-nos pelas narinas adentro abrindo os pulmões. Tínhamos acordado cedo para estarmos entre os primeiros a chegar, subindo dos 2500 para os 3000 metros num dos autocarros que parte de Águas Calientes, a vila mais próxima. Entrando no parque de Machu Picchu, entrevemos o pico Huayna Picchu mas não temos ainda uma vista panorâmica, é preciso subir um pouco mais. Tanta expectativa, quando sabemos que falta pouco.

Subindo por um caminho entre o arvoredo, vamos controlando a respiração, passo a passo. E finalmente, chegamos a uma nova clareira, e ei-lo diante dos nossos olhos. Machu Picchu, entre as montanhas e a leve penumbra matinal, com poucas cores ainda mas já imenso, mágico. E desta vez, sem os limites da imagem estática do postal... um espaço enorme para descobrir, escadas para subir e descer, portas por onde entrar, espreitar para o abismo assustador dos picos íngremes quando nos chegamos ao rebordo, olhar o céu a toda a volta, jogar às escondidas com os lamas entre as ruínas... E quando nasce o sol, os primeiros raios que ousam atravessar as montanhas tocam o Huayna Pichu com dedos de ouro, no mesmo combate entre luz e sombra repetido todas as manhãs. Criado pelos Incas e pela Natureza num cenário único, escondido dos homens até ao inicio do seculo XX, o lugar parece abençoado, um verdadeiro altar ao deus-sol, merecedor de todos os seus títulos e da enorme expectativa que antecipa uma visita ao Machu Picchu. Talvez o mito inca tenha sido sobrevalorizado, mas não o majestuoso Machu Picchu.

Nada a fazer, é preciso vir vê-lo com os nossos olhos.

10 Comments:

Blogger Bluedog said...

MACHU PICCHÚ:

BOM LUGAR PARA SE NASCER; PARA SE MORRER, TAMBÉM. MELHOR DECERTO PARA NOS INSPIRARMOS A VIVER O ESSENCIAL DA EXISTÊNCIA HUMANA, SUBJECTIVA E ÚNICA NA SUA DIGNIDADE INTRÍNSECA.LUGAR DE CHEGADA, DE REENCONTRO, DE PARTIDA, QUE MAIS PODERÁ SER ?

8:36 AM  
Blogger nocturama said...

Já tinha saudades das vossas aventuras, sem dúvida um lugar único que vale a pena sentir e viver...
Beijinhos nortenhos

12:24 PM  
Anonymous Anonymous said...

Isto de entrar no blog e nos apetecer deixar uma marca é totalmente subjectivo. O texto anterior, (Cusco - o umbigo etc)é um bom texto mas não tive nada para acrescentar. Isso mesmo acrescentar porque a escrita (a sua qualidade) arrasou comentários ligeiros.
Foi diferente hoje. Há uma frase em que se fala de portas que nos deixam espreitar desfiladeiros que me fez lembrar de um castelo roqueiro perdido em Castro Laboreiro e que nos deixa ver uma porta de entrada colocada de tal maneira que a defesa era a situação da mesma: ou a entrada era permitida ou bastava um empurrão e o precípicio lá estava à espera. Outros tempos os dos nossos Afonsos e Sanchos que conheciam a roda e a escrita e criaram um país.
Acho que posso perceber uma crítica à exploração desenfreada de Machu Pichu para turista ver em contraponto com a nossa outra maneira de mostrar história muito mais low. De qualquer modo estou connosco ainda que saiba que há muito dentro da nossa terra para ver para mostrar e porque explorar com bom gosto.
Abraços da J
Hoje está calor outra vez ... muito

2:25 PM  
Anonymous Anonymous said...

Isto de entrar no blog e nos apetecer deixar uma marca é totalmente subjectivo. O texto anterior, (Cusco - o umbigo etc)é um bom texto mas não tive nada para acrescentar. Isso mesmo acrescentar porque a escrita (a sua qualidade) arrasou comentários ligeiros.
Foi diferente hoje. Há uma frase em que se fala de portas que nos deixam espreitar desfiladeiros que me fez lembrar de um castelo roqueiro perdido em Castro Laboreiro e que nos deixa ver uma porta de entrada colocada de tal maneira que a defesa era a situação da mesma: ou a entrada era permitida ou bastava um empurrão e o precípicio lá estava à espera. Outros tempos os dos nossos Afonsos e Sanchos que conheciam a roda e a escrita e criaram um país.
Acho que posso perceber uma crítica à exploração desenfreada de Machu Pichu para turista ver em contraponto com a nossa outra maneira de mostrar história muito mais low. E porque não ver, mostrar e explorar com bom gosto o muito que temos e que está escondido?
Abraços da J
Hoje está calor outra vez ... muito

2:36 PM  
Anonymous Anonymous said...

...
Mais uma vez, emocionei-me e percorri convosco os labirintos de pedra, atrás dos lamas que me fujiam, e senti na pele a magia dos primeiros raios de calor e luz dessa divindade que, ritualmente, recria o mito do nascimento e da morte todos os dias.
Não tinha uma ideia muito clara do que era Macchu Picchu mas fiquei com a certeza de que o quero descobrir.
E, mais uma vez, a imagem foi tocada pelos dedos longos de algum Deus que certamente vos tem acompanhado nesta caminhada.
A mim, fizeram-me sentir convosco e aumentar as saudades... e aguardar o próximo episódio...
Adoro-vos!!!

Irmã Inca

2:50 PM  
Anonymous Anonymous said...

Olá,

Para quem já conhece Machu Pichu, entende perfeitamente o texto. A verdadeira surpresa é o que se sente quando se olha para o que parecem ser apenas ruínas como tantas outras no mundo. A situação das ruínas no meio dos Andes e o esforço (caminhos incas) em lá chegar podem ser motivos para tal espanto. Outro motivo poderá ser a espiritualidade do povo inca que nos vem incutindo os peruanos desde que se chega ao país. Parece existir uma energia que não tem explicação racional, fica-se sem palavras para uma descrição que nunca transmitiria o que é de facto Machu Pichu, e a tornaria banal.

Bjs, Marta SP

4:01 PM  
Blogger MacCoy said...

NHO! Jovens ninfas nos vulcões!! AAAUUUEEUUAA!! Aposto que este foi o João a escrever...

Bom, nao percebo nada disto mas achei giro deixar aqui um toque de actualidade aos viajantes. João, 3 musicas dos grandes Red Hot (novo album muito bom) que te estaria a mandar por mail se cá estivesses. Se der para ouvir deu, senao mando em Dez ou levo comigo no ipod qdo vos for encontrar (nao está fácil). Filipa: quando arranjar a nova do Bob Sinclair mando! Eheh!
espero que isto dê...
Aquele

http://www.radioblogclub.com/open/71311/red_hot_chili_peppers/Red%20Hot%20Chili%20Peppers%20-%20%20Snow%20%28Hey%20Oh%29

http://www.radioblogclub.com/open/11065/red_hot_chili_peppers/Red%20Hot%20Chili%20Peppers%20-%20Stadium%20Arcadium

http://www.radioblogclub.com/open/53000/red_hot_chili_peppers_wet_sand/Red%20Hot%20Chili%20Peppers%20-%20Wet%20Sand

4:46 PM  
Blogger MacCoy said...

Filipa, cá vai:

http://www.radioblogclub.com/open/110665/bob_sinclair/Bob%20Sinclair%20Feat%20Steve%20Edwards%20-%20World%20Hold%20On%20%28Children%20Of%20The%20Sky%29

4:49 PM  
Blogger MacCoy said...

OOops..pera lá, este é melhor...
Bjs

http://www.radioblogclub.com/open/99716/bob_sinclair/05.%20Bob%20Sinclair%20%20-%20World%20hold%20on%20%28radio%29

4:53 PM  
Anonymous Anonymous said...

Filipinha:

É bom ter notícias tuas ao longo desse projecto fantástico que é "parar para viajar"!!!

És das pessoas mais indicadas para tirar partido de uma oportunidade única como essa. Os meus parabéns por estares a passar por vivências tão únicas e, pelo que as imagens revelam, com a pessoa certa!

Só espero que o inglês aprendido nos bancos da escola esteja a ser minimamente útil. Por outro lado estou descansado porque tenho a certeza que não te esqueceste do levar um "sewing kit"...

Ainda os meus parabéns pela qualidade das excelentes informações.

Um abraço com muito afecto


Rui Gomes

10:44 PM  

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