Monday, July 31, 2006
Pablo Neruda em Santiago do Chile
A caminho da ilha da Pascoa, tocámos ao de leve em Santiago do Chile, sentindo ao primeiro instante que seria bom termos mais, mais tempo para descobrir arredores e sentir o pulso à cidade.Uma paragem breve no tempo que nos deixou um toque profundo de Pablo Neruda, um convite para voltar e mergulhar um pouco mais no seu mar, tempestade de sentimentos e poesia.
Pablo Neruda, o poeta, o sonhador, um senhor na arte de nos despertar o amor à flor da pele, de nos fazer emocionar com as pequenas coisas da vida, de nos animar para o dia com o coração aberto.
Fomos visitá-lo numa das suas três casas do Chile, " La Chascona", ou "A Descabelada" em português, numa alusão aos cabelos revoltos e sempre desalinhados de Matilde, a sua terceira e última mulher. Passear pelo encadeado desordenado daquelas divisões é como navegar num barco em terra com as janelas voltadas para o mar, um grande céu azul a toda a volta. O mar, a sua fiel paixão, banha cada detalhe da "La Chascona", revelando , numa transparência de águas cristalinas, o quão sensível e apaixonante é Pablo Neruda.
A escolha de cada objecto e sua disposição tinha uma história, escondendo-se uma identidade própria para além da sua utilidade mais crua. A sala de jantar: sobre o comprido, dominada por uma mesa estreita de rebordos levantados e uma dúzia de cadeiras envolvendo-a nos lados, criava aquele ambiente íntimo, mais do que apertado, próprio da arquitectura dos barcos. Os rebordos, essenciais para evitar a queda dos pratos no "alto mar", induzido pelas grandes janelas da sala que se abriam para um percurso de água, reconduzido áquela morada, e pela farta lista de vinhos com que o poeta gostava de brindar à vida com os amigos, ondulando-se-lhes a vista e os movimentos pelo mergulhar do álcool. A sala de estar: por um corredor a céu aberto e alguns degraus de permeio, chegávamos a uma das suas salas de convívio. Uma sala curva, com vidros de cima a baixo de um dos lados, que vigiava toda a casa e cidade, como se do alto de um farol. Recordações dos quatro cantos do mundo cruzavam-se ali pelas muitas viagens de Neruda, acolhendo o assento naquele espaço e estimulando provavelmente o início de muitas conversas. Um barzinho, claro, para temperar o momento e um candeeiro design, induzindo uma luz de farol, assinalava bom porto por aquelas paragens. Vinicius ou Jorge Amado, duas das muitas amizades que se firmaram nesse porto. O quarto: no alto da torre, respirava tons claros e sonos tranquilos. Uma salamandra rematava um dos cantos para as noites mais frias e um dos lados abria-se para uma varanda de convés, onde se avistavam as estrelas e se procurariam as constelações da paixao.
Apenas três de muitos outros recantos, ao longo de vários níveis e desníveis, que se esculpiram do terreno baldio, num abraço à felicidade. O romance da vida paira no ar, nos pormenores e passagens secretas da casa, transpondo o papel onde, a caneta verde e com raras correcções, Neruda ensaiava o amor numa corrente de poesia.
Neruda, ensina-nos que a poesia não precisa de nascer com sofrimento e da solidão. Que a inspiração da vida, gozando a amizade e perseguindo o amor, é digna de nobel, é um elixir para todos nós, é uma oração para que saibamos valorizar os nossos tesouros, dar-lhes cor, fazê-los brilhar e reflectir um sorriso em cada dia.
A "La Chascona" faz-nos sorrir à saída com um brilho emocionado nos olhos, um acordar para aquilo que todos sabemos mas que às vezes nos esquecemos de lembrar.
E hoje, já disseram "amo-te" a alguém?


11 Comments:
vou já telefonar para a águia a dizer "amo-te"... SLB!!!!
ja agora, o que é que acontece às cerejas na Primavera? pq acho que o Neruda que disse "quero fazer contigo o que a Primavera faz às cerejas".. o que ele queria sei eu!!!!
queremos fotografias de TEAHUPOO!!!!!!!
NHO!
Pablo, valeu a pena, para assim te saberem sentir e reconhecer a tua luta pelo reconhecimento do Amor, como motor da relação humana.
"Caros Amigos",
Conheci a vossa história através de uma notícia publicada no jornal e num instante vim aqui parar ao vosso blogue.
Só vos posso dizer que são uns "Ganda malucos" e que estou cheia de inveja de não fazer o mesmo.
Aproveitem por voces e por tantas outras pessoas como eu que vos admiram.
Um grande beijo aos dois,
Susete
(Lisboa)
No sábado tentei enviar uma mensagem mas o meu computador dá-se mal com o calor e lembrou-se de crashar. como hoje segunda a temperatura está a normalizar pode ser que isto corra bem. Em primeiro lugar uma confissão não li Pablo Neruda, só o conheço pelas ideias de esquerda e pela morte nas vésperas da queda de Salvador Allende. Por isso fui saber mais qualquer coisa e descobri que ele se chamava Naftali Ricardo. Nem mais! Fica também prometido que irei lê-lo. Posto isto não resisto a uma lembrança que só agora me surgiu. Era eu muito nova, quase criança, li um livro de viagens que me fascinou. Foi escrito por Ferreira de Castro e chama-se "A Volta ao Mundo". O homem parece não ser muito querido pelos intelectuais mas a mim fez-me crescer, sonhar e ver o mundo com uns olhos muito grandes. A vossa escrita, a vossa "Volta" também está a ser muito bonita e não pensem que o que vou dizer é só para vos animar a fazerem melhor. Eu penso que com a vossa experiência e o material que têm poderão escrever um bom livro de viagens e que saia do que agora é habitual fazer.
Continuação de Boa Viagem e um abraço da J
Claro que li o correio da manhã, ora...:) e vim aqui precisamente para vos desejar a maior sorte, saboreiem, vivam, toquem...essas coisas, porque quando chegarem ou quando estiverem perto da chegada vão querer voltar...
Eu já fiz, por traçado diferente, o que vcs estao a fazer, por isso ainda hoje continuo a viajar de uma forma que traga dinheiro para casa...eheheh
Boa Viagem,
Adenda: se precisarem de boleia quando estiverem na europa...avisem que se pode dar um geito...;)
Olá, gostava de ter o vosso email. Sou da revista de viagens "Rotas do Mundo" e o meu email é cmhatherly@yahoo.com.
Continuação de uma boa viagem e obriagada pelos belos momentos a "viajar2 com as vossas fotos.
Olá! Fiquei a saber da vossa viagem hoje (há bem pouco tempo atrás). Ainda não li o vosso blog, mas fico muito contente que haja alguém da Tugolândia com este espírito. Nós os Tugas somos muito complicados, porque tanto nos dá para sermos aventureiros a sério como para ficarmos fechados no nosso cantinho. Vocês estão a fazer algo com que todos nós sonhamos e estão a mostrar-nos que não é assim tão complicado. Esta aventura vai de certeza moldar a vossa visão da vida e vai influenciar as vossas atitudes futuras. Tomara toda a gente ter a vossa iniciativa (nem que fosse passear por Portugal e conhecer Trás-os-Montes). Força e prometo seguir atentamente os vossos relatos. Divirtam-se!
Ana
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