Tuesday, September 05, 2006
Caravana com vista para a Nova Zelandia
Na Nova Zelândia, chegámos oficialmente ao outro lado do mundo. Aos antípodas, como lhe chama a geografia, uma terra longe de tudo, atrás do sol posto, lá onde o Diabo perdeu as botas, entre outras expressões que por alguma razão envolvem Judas nesta história.Nestas três semanas tivemos a companhia do Francisco, uma visita para matar saudades, rir entre irmãos, ter a família um pouco mais connosco. Neste ano em que entramos nos trintas, voltámos à pós-adolescência embarcando na experiência de percorrer a Nova Zelândia de caravana, como numa nova aventura d' Os Cinco ou o melhor episódio do Verão Azul.
Mais do que uma caravana, a nossa Ermelinda foi uma verdadeira casa com vista para as melhores vistas do país. Adormecemos em plena floresta da Ilha Norte embalados pelo canto misterioso dos pássaros nocturnos, acordámos com o sol a levantar-se preguiçoso das águas espelhadas dos fiordes em Milford Sound, esperámos a hora das baleias preparando o almoço junto à praia vulcânica de Kaikoura... Viajar de caravana deu-nos a liberdade de mudar de cenário todos os dias, escolhendo sempre os melhores spots ao longo do caminho. Os detalhes logísticos da caravana, ao pé das suas vantagens, são isso mesmo, detalhes.
O nosso percurso de quase 5000 km levou-nos de Norte a Sul, e depois de Sul a Norte, entre Ilha Norte e Ilha Sul. Resumindo, andámos muito. Atravessámos grandes paisagens acompanhando lagos espelhados e montanhas nevadas, longas estradas pontuadas a ovelhas sobre prados verdejantes, horas passadas on-the-road ao som da música familiar que tocava no iPod, sintonizado no radio da Ermelinda.
Começámos e terminámos a viagem em Auckland, a cidade onde mais se sente uma verdadeira alma urbana na Nova Zelândia, com os muitos bares e cafés entre os bairros de Parnell e Ponsomby, mercados de fim-de-semana como o de Takapuna e a animada noite em Viaduct Harbour. Percorrendo o país, cada paragem oferecia-nos experiências novas: um banho de lama em Rotorua, grutas iluminadas por gloworms em Waitomo, um regresso ao passado pelos antiquários de Napier, a cidade art-deco, um passeio por glaciares no Fox Glacier, uma prova de vinhos em Queenstown, um cruzeiro pelos fiordes em Milford e uma visita às baleias em Kaikoura. Em cada destino, há muito por onde escolher e parece haver pouco tempo para o dolce fare niente. Há sempre um rio para descer de rafting ou subir de jetboat, uma cascata ideal para a pesca da truta, um restaurante várias vezes premiado ou uma qualquer outra atracção imperdível.
Os melhores dias vivemo-los em Queenstown, onde nasceu o bungy jumping, um desporto evoluído da adaptação de um ritual tribal de passagem à idade adulta originário de Vanuatu. O conceito é simples, consiste em atar uma corda aos pés e atirar-se do alto de uma ponte a uma altura considerável sobre o vazio. Está tudo louco. Em 1987, AJ Hackett, um visionário que certamente tinha pouco amor à vida, deu fama mundial ao bungy saltando do segundo andar da Torre Eiffel. Em 1988, sobre o rio Kawarau a poucos quilómetros de Queenstown, o mesmo AJ Hackett inaugurou o primeiro spot oficial de bungy, onde pessoas dos 10 aos 90 anos foram desafiando o medo das alturas rodeados de montanhas geladas no horizonte e um rio azul turquesa à espera lá em baixo. Nós fomos espreitar, e não resistimos ao entusiasmo que se sente à volta desse lugar mítico onde nasceu o bungy.
A sensação é indescritível, e descreve-se assim: um mergulho de adrenalina, como se entrássemos num túnel de vento e subitamente se apagasse qualquer fio de raciocínio, os órgãos trocassem todos de lugar, e o sangue fervesse ao ponto de nem conseguirmos gritar. Quando subimos as escadas de volta à plataforma, nem sentimos as pernas, o ar que respiramos parece puro como nunca, o corpo ainda mais leve que a alma. Mais do que um desporto, é uma experiência mística, um ritual de passagem. Sentimo-nos no início de uma página em branco, nascemos de novo, como um miúdo de vinte e um anos com a cabeça cheia de sonhos e o futuro inteiro à sua frente.Vejam aqui as fotos da Ilha Norte, e aqui as fotos da Ilha Sul.


20 Comments:
Fantástica viagem...
Belíssima dedicatória à Maria Luisa.
Bjs
Esse cantinho do planeta está na minha lista de tarefas.
Tenho a sensação que a Nova Zelândia deve ser um filme idealizado por um sonhador. Um sonho isolado do Mundo em que as paisagens mais imponderáveis se sucedem (vulcões, paisagens alpinas com picos com mais de 3000 metros, glaciares, lagos, cavernas, mar e praia a rodos), habitadas por animais extraordinários (baleias, kiwis, morcegos, répteis e aves únicos), que coabitam com ovelhas (a proporção é, salvo erro, de 25 ovelhas por cada pessoa, mas os números divergem) e pontuado aqui e ali por cidadezinhas, com um ambiente muito cosy e 'british'. Tudo isto enquanto nos vamos cruzando com maoris e turistas radicais à procura do próximo pico de adrenalina! PERFEITO!
Se for mesmo assim, dificilmente poderiam ter escolhido melhor ponto de passagem, e melhor meio de visita.
Hasta,
Ricardo (R Silva)
HELLO!!!
Eu a pensar que estaria mais perto de voces e afinal estao na Nova Zelandia... estamos de ferias em bali... mais precisamente ubud. acho que iam gostar disto... claro que o hotel tem internet a borla e nao resisti vir ver as ultimas novidades... todo o site vem em chines por isso nem me consegui registar... faltam ainda 8 dias para terminar as nossas ferias. e estao a ser fantastics. prometo por umas fotos no site.
1 bj muito grande
iri
HELLO!!!
Eu a pensar que estaria mais perto de voces e afinal estao na Nova Zelandia... estamos de ferias em bali... mais precisamente ubud. acho que iam gostar disto... claro que o hotel tem internet a borla e nao resisti vir ver as ultimas novidades... todo o site vem em chines por isso nem me consegui registar... faltam ainda 8 dias para terminar as nossas ferias. e estao a ser fantastics. prometo por umas fotos no site.
1 bj muito grande
iri
Não me é possível encerrar em palavras a erupção de emoções que este texto e estas fotos me fizeram sentir. A dedicatória final é de uma beleza irresistível, que conduz directamente ao sentimento da grande harmonia integradora de todas as facetas e momentos da VIDA,
Sinto-me cada vez mais uma pessoa previligiada, com uma família tão bonita como esta, na sua diversidade e respeito da identidade de cada um
A todos, SARAVAH !!!
Obrigada por partilharem connosco os vossos fantásticos momentos nos antípodas! BEM HAJAM!
Que saudades, meu Deus!!
Olá !
Tenho estado a adorar poder acompanhar esta vossa aventura . Uma beijocas para os 2.
Elisabete Correia
Johny e Pêpa,
Tive a tão pouco tempo com voces e ja estou cheio de suadades novamente!!! Posso ir ter com voces outra vez?!? :)Adorei estar convosco nesta fantástica viagem, onde, além de conhecer outros sítios, vos conheci melhor também.
Haverá melhor????
Mts Bjs. Até breve
xikinho, há melhor, mas envolve umas quantas coisas que não posso aqui dizer.
ehehehehehehehehhehehehehh
bjs
Adoro ler o vosso blog! Obrigada por partilharem, mesmo com quem não vos conhece, esta aventura incrível! :o) Boa sorte!
A Nova Zelândia é linda. A Ilha do Sul a confirmar que o mundo é sempre belo onde reine a paz. Vocês são encantadores por me permitirem aproximar-me das emoções que tudo isso desencadeia quando as vemos ao vivo.
E agora para brincar um pouco:
- Tal como o nome do filme "... até vi ovelhas felizes"
- A ovelha estranha é simplesmente uma ovelha negra coberta de neve
- A baleia de nome intraduzível é só um cachalote
Até à próxima com um abraço da J
A Nova Zelândia é linda. A Ilha do Sul a confirmar que o mundo é sempre belo onde reine a paz. Vocês são encantadores por me permitirem aproximar-me das emoções que tudo isso desencadeia quando estamos próximos de tanta e tão rara beleza.
Parabens à Senhora a quem foram enviados aqueles postais: eles são mesmo extraordinários na intenção e na forma.
E agora para brincar um pouco:
- Tal como o nome do filme "... até vi ovelhas felizes"
- A ovelha estranha é simplesmente uma ovelha negra coberta de neve
- A baleia de nome intraduzível é só um cachalote
Até à próxima com um abraço da J
Para quem ainda não sabe, hoje já estavam no Vietnam !!!
14.09.06
Olá travellers ! Trabalho a quanto obrigas, nomeadamente não ter horários que sejam compatíveis com a possibilidade de falar convosco, tendo em conta a diferença horária...
Beijocas grandes.
pois, caravana...é prima da minha Zulmirinha...
mas a Zulmirinha é mais alta...lalalal, eu ganho...;)
boa viagem :)
Consultei o blog várias vezes e devo um comentário geral à v/ viagem, aqui vâo umas notas soltas.
PARAR? Não.Tomar outro rumo sim. Qual? VIAJAR. Para onde? O blog só pro si neste momento já diz muito.
Invejo-vos, pelos locais visitados, pela forma de comunicar e pelo talento descritivo. Não há dúvida estão a nascer repórteres de viajem.
Revi alguns lugares por onde passei e gostei muito da prosa, por vezes nitidamente poética, dando beleza ao texto sem fantasiar a realidade. Admirei muito o relato da Bolívia, autêntica peça jornalística, com descrição da crise socio-política vivida no momento, a sua integração histórica nos anos de braza da guerra fria e já opinião sobre perspectivas evolutivas.
Afinal, além de mudar de rumo, que nos traz mais este viajar?Evidentemente conhecimento e aventura, mas igualmente novo potencial de conhecer.Depois duma viajem costumo dizer: "A informação que me chega sobre os locais visitados jamais è tratada da mesma maneira".
Recentemente visitei a África do Sul - Província do Cabo e Botswana. Descobri que ignorava muito sobre um tema que supunha conhecer razoavelmente - BOCHÍMANES - os tais pigmeus do filme "Os Deuses devem estar loucos", povo nómada do deserto Kalahari.Um ilustre mestre da minha Querença, o professor Manuel Viegas Guerreiro, em Angola fez um excelente trabalho, publicado em livro, sobre os Bochímanes do deserto de Moçamedes.Afinal os Bochímanes não são originários do deserto,mas sim da África mais meridional donde foram empurrados pelas sucessivas "hordas" de colonizadores, dos Portugueses aos Ingleses, com realce especial para os Holandeses.
Descobri também que as baleias dos mares da Antártida nos meses de Junho a Setembro vâo dar à luz nas águas calmas das baías desta zona de África, vê-las nadar a dezenas de metros da praia é um espectáculo emocionante, que tive a felicidade de presenciar.Mas verdadeiramente emocionante, apesar do distanciamento histórico, mais de 500 anos, é ver réplicas dos padrões de Bartolomeu Dias e Vasco da Gama nos ingremes penhascos onde aqueles navegadores os deixaram, sentir a força do vento no Cabo das Tormentas (mais do que Boa Esperança), imaginar o Adamastor e a epopeia daqueles heróis. As referências aos Portugueses são muitas no Cape Point, mas são-no principalmente em Mossel Bay (perto de Porth Elizabeth)no museu Bartolomeu Dias onde se encontra uma réplica da caravela usada por este navegador, construída em Vila do Conde,e que em 1988 comandada por um oficial da Marinha Portuguesa fez a mesma viagem de Bartolomeu Dias 500 anos depois. A tripulação actual ocupa também lugar de destaque na galeria do museu. Como graça a mulher do comandante à pergunta:" O que pensa do seu marido"? Respondeu: "Penso que a sua 1ª paixão é o mar". Sabe-se lá se admitia ser a 2ª. (continua).
Zé Maria
Filipinha:
Há tempos deixei-te uma mensagem. Pode ser que não a tenhas visto ou então o tempo deve ser tão escasso para digerires tantas "impressões" que nem dá para responderes a todos quantos te escrevem (o que percebo perfeitamente!)
Espero que o nosso inglês esteja a ter utilidade prática e que nunca te separes do teu "sewing kit".
Deixa-me dizer-te que abriram-me ainda mais o apetite para a Nova Zelãndia...
Um grande abraço e até um destes dias.
Rui Gomes
(continuação)
O museu Bartolomeu Dias em Mossel Bay não se fica pela caravela, existem múltiplos instrumentos de navegação da época, inúmeros painéis altamente informativos,realçando como os Portugueses contribuiram para o desenvolvimento da construção naval,cartografia,navegação,geografia,medicina, etc.etc., foi bonito.Interroguei-me várias vezes:"Porque não existe um museu destes na zona do Restelo"?Complementava muito bem a Torre de Belém, os Jerónimos e o Padrão dos Descobrimentos.
Mas a África do Sul não é só passado longínquo, a visita ao museu do apartheid em joannesbourg, levou-nos a esta mancha negra na história do País e às suas repercussões na cena política actual, dominada essencialmente pelo ANC, cujo próximo Congresso até ao fim do ano parece ser dominado essencialmente pela luta entre duas facções a mais radical das quais quase defende um novo apartheid de sinal contrário.Além disso a imposição de quotas para negros em todos os sectores da sociedade sem entrar em linha de conta com qualificações técnicas e profissionais pode conduzir a algum retrocesso.
Finalmente rumámos ao Botswana,África selvagem que admiro,e,onde encontramos uma situação única no mundo,o delta do OKAVANGO, rio com origem no sudeste de Angola, resultante da confluência do cubango e do cuíto vai desaguar no interior do continente africano.Na instrução primária ensinaram-nos que os rios correm para o mar,hoje acrescentamos:"excepto o Okavango". Imagine-se agora a riqueza de fauna e flora neste oásis de água, no interior de uma África desértica.
Continuem a v/aventura com felicidade, mantenham-na tanto quanto puderem e façam-nos esses relatos excepcionais.
Muitos parabéns por este magnífico blog e por essa capacidade de ter tido a coragem de parar.Disse parar?Não.Quero dizer:"mudar de rumo".
Força. Um grande abraço
Filipinha:
Há dias, quando te enviei uma mensagem, acabei por não te dar o meu "endereço". Para o caso de quereres dar notícias (mas por favor, não te sintas obrigada!)aqui vai ele:
rggrgg@clix.pt
Tenho gostado imenso de ler a vossa prosa.
Um beijo grande
Rui Gomes
Olá!
Não me conhecem, sou amigo do João Dias que me recomendou este blog. Nós estamos a preparar a nossa propria viagem de 8 meses, um trajecto um pouco diferente do vosso mas que tambem inclui a Nova Zelandia. Estava a pensar tb numa caravana, podiam-me recomendar a nivel de preços e onde arranjar as caravanas, o que recomendam? Alias, quaisquer dicas praticas que possam partilhar sobre uma viagem dessas seriam muito benvindas.
O meu email é ptfarinha arroba gmail.com
Obrigado, e foi girissimo ler o vosso blog, aumentou-nos o apetite!
Pedro
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