Saturday, October 21, 2006

Um adeus 'a China, de Lijiang

Dizem-nos que Yunan é, de todas, a provincia mais bonita e por isso guardámo-la para fechar a nossa última semana e capítulo na China.

A 2.400 mts de altitude, largamos mochilas em Lijiang, uma pequena cidade museu com mais de 800 anos de História, feita de ruas de pedra, casinhas com pátios interiores e muito azul, a cor dominante que vestem os naxi, minoria étnica originária desta região.

Lijiang, apesar de repleta de pequenas guesthouses, sempre cheias com novas visitas, conseguiu preservar as suas ruas e fachadas e, como uma pequena Veneza, manter o encanto nos seus estreitos canais que envolvem a cidade num abraço a muitos braços.

Por esses canais, noras de madeira antiga dançam ao ritmo do caudal , peixinhos alaranjados nadam por toda a cidade na boleia das correntes, verduras frescas e perfumadas levam aqui o seu primeiro e talvez único banho antes de mergulhar no wok, e até desejos e promessas são aqui lançados, sob a chama de uma vela, num barquinho de papel.

Na praça central, turistas e naxi misturam-se à sombra das árvores, e o final da tarde ali convida a ficar, vendo os mais velhos na conversa, algumas senhoras bordando, outros tocando música, enquanto crianças desafiam a irregularidade das pedras da calçada, entre correrias e outras brincadeiras.

Com carros, motas e bicicletas proibidos de entrar na zona antiga da cidade, Lijiang respira serenidade ao mesmo tempo que transpira vida e cor, com as suas ruas animadas pelo comércio de artesanato e os fritos na rua, prontos a comer e, infelizmente, prontos também a cheirar...

As portadas de madeira envelhecida e as telhas negras nos telhados inclinados adornam esta cidade cheia de carácter, onde apetece ficar. E nós, forçados pela chuva, fomos ficando, à espera de um dia soalheiro para visitar os arredores. Tempo para nos refugiarmos no Praga Café, onde tomámos quase sempre o pequeno almoço e onde deixámos a chuva passar enquanto líamos, escrevíamos ou até víamos filmes. Um café que nos soube a casa entre a sua mini biblioteca, videoteca e saborosas refeições. Sensação agradável, a de sermos habitués de alguma coisa longe de casa, sermos recebidos com um sorriso de quem já adivinha que é mel e não compota ou de que o ovo é estrelado mas não muito frito.

E quando o sol apareceu, lá fomos nós à descoberta, mais uma vez de bicicleta, mais uma vez com um mapa duvidoso nas mãos. Campos de girassóis acompanharam parte do percurso, como se Van Gogh por ali tivesse passado e quebrado a monotonia do verde com umas pinceladas de amarelo, inclinadas para o sol. Por esses caminhos de girassóis visitamos Baisha e Shuhe, com as mesmas portadas e as mesmas telhas, mas menos turisticas que Lijiang. Sempre com o seu trajar característico, assistimos à rotina diária dos naxi, sob um colorido e simbolismo genuinos que, sem palavras, representam nos sete discos, com o sol e lua nos extremos, o espírito de dedicação ao trabalho, desde a aurora até ao anoitecer. Uma minoria étnica que se orgulha da sua música e da sua escrita pictográfica, e que sabe celebrar as suas raízes mesmo depois de um longo dia de trabalho.

No nosso último jantar, desta vez no Lamu's Tibetan House, digerimos Lijiang e todo este mês de China, onde aos poucos nos fomos aproximando da sua herança e cultura, sempre mantidos à superfície. Não se pode dizer que é um povo simpático, mas soube receber-nos com o nosso reduzido vocabulário de mandarim e umas poucas palavras de inglês, do lado deles.

"Conhecemos" o povo curvado e enrugado da vida rural, que nos transportou para o cruel imaginário de Mao e dos seus campos de trabalho agrícolas. Que outras marcas escondidas do simples olhar, que sonhos, que receios? Uma profundidade que não conseguimos tocar.

"Descobrimos" também a classe que já consome o ocidente, que viaja e fotografa no seu próprio país e que parece feliz. Um sinal de esperança, o caminhar para a liberdade? Talvez, no contexto das aparências, poderíamos dizer que sim. Mas como nos dizia a Marie Jo, francesa a viver há sete anos em Singapura e que conhecemos em Lijiang, as teias de controlo continuam apertadas. Como teias de aranha, parecem invisíveis mas estão lá, controlando mails, notícias, vidas. E prontas a apanhar a presa quando esta começa a incomodar, a querer voar mais longe. Nós próprios constatámos isso em notícias de jornal: notícias que só apareciam na versão em inglês para não chegar à maioria dos chineses, advogados que estavam a ser perseguidos e acusados de corrupção, no seguimento do seu envolvimento em processos de defesa do povo, como no caso da estirilização a que uma vila inteira foi submetida, para o Governo conseguir atingir os objectivos de controlo de natalidade...

O contexto ainda é difícil, portanto, mas muita coisa está a mudar. E se por um lado a China se está a abrir ao ocidente porque isso lhe traz riqueza e crescimento, por outro, não consegue evitar que os pensamentos, sonhos e liberdades fiquem de fora. Dessa mistura está a China a reformar-se a cada dia e nós ficámos contentes por ter sentido essa mudança, mesmo que à superfície.

Zai jien... Adeus, China. A partir de agora, à distância, vamos continuar a seguir atentamente a História que se segue. Ficar a torcer por um final feliz para este povo que já sorri com os olhos mas talvez ainda não com o coração.

Viajem connosco por aqui ...

5 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Interrogo-me como vão ser vocês quando regressarem. Tenho dificuldade em imaginar que voltem à vossa vidinha do trabalho das 8 às 8.

Bjs,
Bilu.

7:38 PM  
Blogger Bluedog said...

Liquei-me cerca das 14h30m mas já não vos encontrei...em contrapartida reesncontro-me convosco ao ler mais este belíssimo texto. Quando vos vejo/leio/escrvevo nem sempre as saudades são iguais: hoje são ENORMES ! Uma beijoca grande, talvez até amanhã, queridos !

8:32 PM  
Anonymous Anonymous said...

Olá! Acabei de escrever o texto mais longo que escrevi até agora nos comentários.....foi ao ar, nao sei porquê!
Em resumo, e a começar de trás para a frente:beijos ao tio nuno e que mande a foto da festa a que foi ontem para se ver a indumentária!
Estou cheia de fome e até comia um bom hot dog!(esta foi muito resumida)
A foto das raparigas a almoçar deu-me vontade de comer um bom chao min ;aytêntico e sem bicarbonato se sódio por favor).
O galo nao me entusiamou tanto
as fotos e o texto estao muito bons como sempre!
Estao os dois linods mas com ar cansado, sobretudo a pepa!
O resto já me esqueci!
muitos beijos,
Até breve,
constança

2:47 PM  
Anonymous Anonymous said...

Um povo que sorri com os olhos mas ainda não com o coração.
E é assim, nesta simplicidade metafórica, que é retratada uma nação milenar que foi carinhosamente visitada por estes dois personagens que, guiados pela sua curiosidade aventureira, nos abriram um pouco as portas de uma civilização muralhada, sob o filtro eufemístico da busca incessante do belo. Amei a China que me propuseram e sinto convosco o cuidado maternal em deixá-la ultrapassar o seu estado adolescente ao tentar viver a civilização do ocidente.
Cada vez mais perto, mas nem por isso mais conformada com as saudades que tenho de vocês.
Voltem lá...

Sorelita

7:42 PM  
Blogger bublicious said...

Porraaaaaaaaaaaaaaa!!!! E então
como é q é??? A Tailândia não despertou assim nenhuns sentimentos de escrita nessas 2 iluminadas almas???.. tem q... já não basta perder-vos assim por uns meses, q bom seria ver-vos no outro lado do mundo, e não dizem nada... bom.... eu lá vou, mais uma vez para a thai land, o país onde tudo se concretiza.. ou talvez não.. mas fazer o q...eu gosto mm daquilo!! bjs e saudades Rita & Tota

1:59 AM  

Post a Comment

<< Home