Wednesday, December 06, 2006

Bodhgaya Vibes

No trajecto entre Varanasi e Calcuta', a pequena vila de Bodhgaya chamou-nos a atencao enquanto planeavamos o nosso itinerario pela India. No coracao da regiao mais pobre do sub-continente, a provincia de Bihar, Bodhgaya e' o destino de peregrinacao mais importante para os budistas de todo o mundo. Foi aqui, ha 2550 anos, que Siddharta Gautama atingiu a iluminacao debaixo de uma 'arvore, iniciando o caminho do Buddha. Uma Meca para os budistas, um lugar sagrado onde todos os anos chegam milhares de tibetanos refugiados em Darhamsala, que por aqui encontram novo refugio quando chegam os rigores do Inverno ao Norte da India.

Entrando no Bihar, tinhamo-nos preparado para o pior. Por toda a parte, incluindo guias de viagem, diziam-nos que esta e' a provincia mais pobre da India, o que, conhecendo a India, significava que nos deviamos preparar para redefinir a nossa nocao de pobreza. Mais do que isso, alguns comentarios que pareciam revestidos de uma estranha forma de preconceito descreviam-nos as pessoas originarias do Bihar como "maus figados", algo que ouviamos desconfiados por contradizer a imagem que ja ha dois anos tinhamos construido do povo indiano, um retrato cheio de olhares doces e sorrisos generosos. Apesar de tudo, nao queriamos deixar de conhecer Bodhgaya, que o Lonely Planet descrevia como mantendo a mesma atmosfera tranquila do tempo da iluminacao de Siddharta, e como de qualquer forma nos ficava em caminho resolvemos ir ver.

'A chegada, o tempo do Buddha parecia bem distante. Para la dos muitos templos, era dificil sentir uma atmosfera tranquila, com vendedores ambulantes e riquexos sempre a oferecer um souvenir ou uma boleia, carros e motas armados de potentes buzinas a competir por atencao sempre que saimos do hotel, e sobretudo a persistencia de mendigos e miudos de rua por toda a parte. Mais do que chocados com a pobreza, uma visao habitual para quem viaja pela India, entristecia-nos o que parecia ser uma forma de mendicidade "profissional", miudos que pedindo uma moeda para comer nao agradeciam sequer quando lhes davamos comida. Criancas que os pais preferem ver na rua do que na escola, roubando-lhes o futuro habituando-as 'a esmola facil na vida dura das ruas.

Nao tinhamos ainda conhecido o outro lado de Bodhgaya, esse mundo interior dos templos que visivelmente nao tinha contagiado o ambiente da cidade, mas cedo decidimos que nao queriamos ficar. Ficamos dois dias apenas, entre um comboio de Varanasi e outro para Calcuta, procurando pelos templos a tranquilidade a que vinhamos.

No templo principal de Bodhgaya, o Mahabodhi Temple, descobrimos a energia invulgar deste local de culto, erguido no exacto local da iluminacao do Buddha. A toda a volta, monges em trajes vermelhos ou laranjas recitavam um mantra acompanhando a voz grave e monocordica de um dos mestres, um som hipnotizante que vibrava atravessando-nos o corpo e o espirito. Outros monges dedicavam-se a uma estranha reza, deitando-se ao comprido sobre um tapete para em seguida se levantarem, erguendo as maos de palmas unidas para o ceu. Repetiam este gesto vezes sem conta, o suor sobre o rosto e os musculos sentindo cada esforco, deitando-se e levantando-se numa demonstracao profunda de fe. Aqui passamos uma tarde simplesmente a ler, enquanto a brisa levava e trazia os mantras, parecendo acompanhar a nossa respiracao.

Em Bodhgaya vimos tambem num curto passeio todos os estilos de arquitectura de templos budistas, nos templos aqui edificados pelas diferentes comunidades espalhadas pelo mundo. Visitamos o templo Tibetano, o do Butao, o Nepales, o Tailandes e ate' o templo Chines, revisitando tambem alguns dos locais por onde ja tinhamos passado, entre Pequim e Bangkok. Mas foi no templo Japones que nos prolongamos, juntando-nos a uma sessao de meditacao. Todos os dias, ao nascer do sol e ao por do sol, dao-se aqui sessoes de meditacao zen orientadas por um mestre japones, no interior do templo onde a imagem de um Buddha dourado e o perfume do incenso nos inspiram ao recolhimento. O proprio mural pintado a toda a largura do templo convida 'a meditacao, numa representacao de todos os povos do mundo unidos numa oracao comum 'a paz universal.

Ao por do sol, demos entao o nosso primeiro mergulho no mundo da meditacao, uma curta experiencia mas que ja' deu para pelo menos sentirmos a temperatura da 'agua... O controlo da respiracao, o exercicio da concentracao e a manutencao da postura correcta desafiaram-nos ao longo da sessao, mas sentimos progressos que nos agucaram a curiosidade. O mestre Hirade Zenkai, originario de uma vila nas proximidades de Kyoto, orientava a sessao, percorrendo a sala com a sua voz suave que prenunciava sempre um sorriso, corrigindo por vezes a nossa postura ou sugerindo exercicios de concentracao.

No final, contou-nos historias simples para levarmos connosco, ilustracoes de sabedoria que ouviamos com a reverencia de um discipulo para o seu mestre. Comoveu-nos sobretudo o relato profundamente pessoal da historia de um filho que teve, mas que morreu cedo antes de fazer um ano, e que ilustrava a sua forma de ver a vida. Acreditando na reencarnacao, mestre Zenkai passou a partir desse momento tragico a ver o seu filho em tudo o que conhecia, imaginando que teria voltado ja' na forma de uma 'arvore, uma flor, um passaro, um cao, ou talvez na forma de um homem ou de uma mulher. Nao sabendo em qual das formas teria regressado, gostava de tratar todos como se se tratasse do seu filho, abracando qualquer forma de vida com o carinho de um pai. Uma historia triste que nos abracou tambem, contada sem magoa e com o olhar sereno de quem vive em paz. Uma paz que trouxemos connosco e que marcou a nossa passagem por Bodhgaya.

'A despedida, sentimos que nao vamos voltar, mas que mesmo assim ganhamos algo na visita. Nunca sabemos o que vamos encontrar ate' nos desafiarmos a conhecer a realidade com os nossos olhos. E como na meditacao, e' muitas vezes bem para la das aparencias e do tumulto que se esconde a mais preciosa das sabedorias.

4 Comments:

Blogger Bluedog said...

Bom dia, a partir de Lisboa.

São aqui 8h35m e acabei de ler os "Bodhgaya Vibes", bela maneira de começar o dia, a acompahar uma sessão de meditação ZEN que gostaria de ver prolongada ao longo das horas.

Beijinho

Faltam 4 !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

8:40 AM  
Blogger GoncaloCV said...

faltam 4 quê?

7:33 PM  
Blogger Bluedog said...

Meu querido G!, faltam 4 dias para o teu irmão chegar ao aeroporto dito da Portela (isto para dar um ar mais "cosy" e suburbano ao dito)...

11:05 PM  
Anonymous Anonymous said...

Grandes vibes... parecia que estavámos aí com vocês a sentir essas auras!!

Um grande abraço e beijinhos para os "budas" João e Filipa da Carmo, Márcia e Ricardo

11:07 PM  

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