Monday, November 27, 2006
O mundo fantástico de Orchha
Caiada de azul turqueza, verde água ou amarelo, Orchha parece à chegada uma aldeia de bonecas. Um prenúncio de dias tranquilos depois de vivermos a agitação de Delhi.Com uma breve referência no roteiro do Lonely Planet onde os focos estão voltados para os templos esculturais de Khajuraho, gostámos do pouco que lemos e resolvemos ir lá espreitar. Mais do que uma aldeia colorida em miniatura, Orchha vive no sopé de ruínas do séc XVI que exibem, ainda deslumbrantes, o passado grandioso dos mughals em pleno território de Rajputs. Um mundo de fantasia, revelado no prolongamento das casas e montes à volta, como se fizesse parte do cenário natural da aldeia.
Com um rio a atravessar a cidade, às primeiras horas da manhã muitos são os que visitam estas águas para tomar o banho do dia ou bater as suas roupas na rocha, espantando as nódoas no amassar dos tecidos. Um ritual para todas as idades, onde a diversão das crianças chapinhando na água com um capacete de espuma branca na cabeça, esconde a mais dura realidade das suas casas ainda hoje sem água canalizada.
Templos, palácios e cenotáfios vigiam esta rotina diária em silêncio, do alto das suas construções, enquanto as vacas sagradas se refrescam também no rio ou procuram descanso na primeira sombra que encontram. Por caminhos sinuosos que tentámos adivinhar por entre a vegetação seca da região, fomos descobrindo a imponência deste pequeno reino em ruínas.
As paredes, despidas pelo tempo em tons de terra, deixam-nos vestígios de vivos azulejos azuis que conduziram a nossa imaginação por cúpulas e torres totalmente tingidas de reflexos de céu, ofuscando o horizonte. Por varandas, pátios e labirintos de salas e quartos, perseguimos faustosas lembranças de festas inebriadas pelo queimar de incensos, declarações lançadas numa conversa à varanda, testemunhadas pelo crepúsculo e escutadas por entre o rendilhado das paredes, ou noites sedutoras à luz de velas, com os muitos frisos na parede abrigando a luz. Histórias que roubámos aos palácios e que nos deliciaram na exploração dos seus recantos, momentos que temperaram esta paragem de magia.Uma ala do palácio Jehangir Mahal virou hotel e um nosso pequeno almoço serviu de pretexto para entrar. Descobrimos um espaço mais mantido que recuperado, não fazendo justiça à beleza da sua juventude. Uma varanda acenou aos nossos sentidos e ali sentados iniciámos uma das manhãs em Orchha. Neste palácio, onde a vista lhe concede o encanto natural, parecia-nos fácil torná-lo sublime... mas ali, ainda muito trabalho havia para fazer. E com uma série de outros palácios a serem recuperados à volta desejámos que quem estivesse a dirigir esses projectos tivesse a paixão dos seus antepassados e a usasse para um reavivar autêntico dessa herança encantadora de verdadeira poesia arquitectónica.
Entre ruínas e caminhadas sem mapa, passámos assim dois dias tranquilos descobrindo templos abandonados, admirando murais escondidos ou procurando o ponto mais alto para o entardecer. Sinal do seu passado grandioso éramos surpreendidos por ruínas qualquer que fosse a direcção tomada, pelo que nos deixámos perder com o tempo e a imaginação, deixando-os conduzir o nosso dia.Orchha, com pouco mais de dois restaurantes, oferecia-nos aquele conforto familiar que ao fim do primeiro dia já nos permitia reconhecer caras na rua. Uma pequenez encantadora que nos conduziu à partilha de uma das poucas mesas para jantar e assim conhecer a Robin e a Camille, mãe e filha numa mistura de Nova Zelândia e Austrália, que estavam a viver juntas a Índia, ao longo de cinco meses. Uma empatia natural iniciou uma prolongada conversa pelo jantar adentro e fez delas nossa companhia nas outras visitas àquele restaurante. A Robin estava a revisitar memórias de uma Índia viajada há 27 anos atrás com o marido, numa aventura de descoberta round the world como a nossa. A Camille estava a ser apresentada à Índia, numa viagem que lhe iria despertar a curiosidade para conhecer mais, antes de iniciar as aulas na faculdade. Entre conversas e coincidências que nos aproximaram cada vez mais, adorámos partilhar Orchha com a Robin e a Camille. Uma amizade que se construiu além fronteiras, na vontade de um novo encontro algures neste mundo.
No último dia visitámos o templo de Santu Shima, no alto de um monte. Macacos acompanhavam-nos na subida brincando nas árvores ou escalando as construções mais próximas. Saris coloridos ondulavam-se com o andar dos corpos que secretamente os moldavam na sombra e risos de criança marcavam o ritmo da rua enquanto papagueavam "hello, hello".
Chegados ao cimo, de dentro do templo hindu surgiu-nos uma figura anciã, de longas barbas e olhar profundo que nos conduziu ao altar iluminado do templo, cheio de ofertas simbólicas aos céus. Ganesh, Brahma, Vishnu, esculturas de vários deuses ao centro tingiam o altar de cores alegres, como que pintando um sorriso à vida. E o velho pujari, orgulhoso da sua devoção, ia apontando e dizendo o que cada objecto significava. A barreira da linguagem, que mais uma vez nos limitou o entendimento, não foi suficientemente forte para nos impedir de sentir a autenticidade deste simpático senhor de barbas, que nunca pedindo esmola, antes nos ofereceu um pouco do seu chai.
À saída, com umas gotas de água santa e um marca vermelha na testa despediamo-nos deste guardião do templo, com a sua benção. Nós com a promessa de lhe enviar a foto que lhe tiráramos, para ele a pendurar no seu cantinho dormitório também ali no interior do templo.Deixámos Orchha ao final do dia, quando as suas cores já dormiam sob o manto escuro da noite. À volta, reflectindo a luz da lua, surgiam no horizonte recortado os contornos palacianos deste cenário imperial. Uma pequena aldeia, uma entre muitas outras que competem pelo seu nome no mapa e que passarão despercebidas entre os muitos famosos postais da "Incredible India". Para nós, mais uma pérola desta viagem. De portas abertas para um passado de realeza, com casinhas coloridas vivendo lado a lado com palácios, descobrimos um ambiente muito especial neste pequeno mundo fantástico de Orchha.
Viajem connosco por aqui ... e descubram tambem Delhi por aqui...


7 Comments:
A India para mim continua a ser um deserto que me intriga e me amedronta. Contudo a vossa descrição é baseada em paz e serenidade, a mesma que as religiões orientais transmitem. Há apesar disso o caos das cidades Indianas que me coloca fora dessa calma e me transmite o "medo" que referi. Pode ser que naquele, já famoso, bruch na Estrela vocês me mostrem a face de um India que eu aceite.
Bjs
Tio Nuno
As fotos de Orchha estão um sonho: a luz, as cores... Tanto um como o outro estão muito lindos! :)
É diferente de todas as outras.. Parece que esse bocadinho de mundo faz parte dos dois!, ñ sei bem explicar..
Como o tio Nuno disse, vocês transmitem-nos uma índia em que apesar da pobreza, é tudo sereno e de algum modo as pessoas são felizes.
Não sei se é verdade, ou se é a vossa visão, que através da câmara vocês nos dão a mostrar. Por isso penso.. indo à índia, vêm connosco ;)
Bjos grds
inês e rodrigo
Acabei de ver as vossas fotos da INDIA e as vossas descrições fantasticas sobre as cidades e templos visitados,e digo-vos qu desta vez se tivesse possibilidade de me deslocar com facilidade não escolheria a India como ponto de visita.
É possivel que haja muitos templos e palacios para ver,concordo, mas o aspecto de atraso que se verifica não encanta qualquer um.
Vocês estão a dias de chegarem a Lisboa e nessa ocasião teremos
muito para conversar.
Um beijo dos vossos avos
G e G
Começou o countdown. Agora é o normal de 10/9/8/7/6/5/4/3/2/1 Puuuuuuuuuuuum
Aproveitem os ultimos olhares e cheiros.
bj
Tio Nuo
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1.12.06
Fotos lindas, texto de grande suavidade e beleza, pessoalmente também continuo impregnado de alguns preconceitos (?) fotográficos de massas de milhões e milhões de indianos a viver em condições infrahumanas. Admiráveis povos se, apesar disso, vivem nessa serenidade e paz que os mantêm no caminho dos Deuses.
Faltam 10 !
Faltam 7 ! ( pela minhas contas )
Editorial da BLUE TRAVEL de Novembro, intitulado "DAR A VIDA PELA VIAGEM..."
"...essa necessidade, essa condição de viajantes...têm a coragem de pôr tudo em causa para poderem partir. Não se conformam, organizam-se e põem em prática mil aventuras que vão arquivando numa vida cheia.
Entre leitores, amigos e conhecidos, são muitos os casos que temos testemunhado. Três deles são mesmo paradigmáticos... TAMBÉM NÃO VOU ESQUECER NUNCA A FORMA APAIXONADA COMO O JOÃO E A FILIPA ME APRESENTARAM A IDEIA DE DAR A VOLTA AO MUNDO. " SENTIMOS QUE TEMOS DE IR. E QUE É AGORA", DISSERAM-ME. E FORAM. EM LISBOA DEIXAM SAUDADES E A CARREIRA DE MARKETING EM STAND BY. O GOSTO PELO TEXTO E PELA FOTOGRAFIA, ASSIM COMO UMA NOÇÃO CLARA DO QUE É O ESPÍRITO BLUE, VAI PERMITIR-NOS PUBLICAR ALGUMAS ETAPAS DESSA VIAGEM. NA EDIÇÃO ANTERIOR JÁ TIVÉMOS A DO DESERTO DE ATACAMA"...
Só hoje dei por esta pérola,mais uma no colar dos nossos queridos viajantes !
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