Tuesday, November 14, 2006
As ruínas de Angkor
Considerada uma das Sete Maravilhas do Mundo, Angkor é uma paragem obrigatória no Camboja, um cartão de visita internacional com carimbo da Unesco que coloca este pequeno país nas grandes rotas do turismo mundial.Antes de chegar a Siem Reap, cidade turística que se tornou a base para a exploração dos templos, percebemos a influência de Angkor em toda a cultura cambojana, um impacto que vai muito para além do encaixe financeiro que representa em divisas externas. Por toda a parte, Angkor é o símbolo de uma época gloriosa, um orgulho nacional usado na própria bandeira, cunhado na moeda, usado pela principal marca de cerveja ou adoptado como nome de restaurante. Um pouco como os incas no Peru, a civilização perdida de Angkor é um ideal antigo, a imagem de tempos áureos a que todos querem voltar, apagando as marcas tumultuosas de um passado recente.
Pela rua principal de Siem Reap, não há sinais do fantasma de Pol Pot a receber os turistas, e por aqui khmer é apenas o nome da cozinha tradicional cambojana, uma descoberta a que somos convidados pelas vastas ementas dos muitos restaurantes da cidade.Confortavelmente instalados no charmoso hotel l'Auberge des Temples, fomos então à descoberta dos templos. Não sendo possível alugar mota em Siem Reap, sabíamos que não poderíamos repetir aqui a experiência de percorrer os templos com a liberdade que tínhamos já experimentado na Ilha da Páscoa. Contratámos então um riquexó de véspera, acordámos cedo, e por volta das sete e meia da manhã estávamos já a chegar a Angkor.
Às primeiras horas sentíamos a brisa fresca da manhã sobre a pele e a bruma levantava-se ainda preguiçosamente por entre as árvores, mas parecia que o dia já ia longo em Angkor. Pelas estradas que cortam a floresta tropical a toda a volta dos templos, sentia-se já um tumulto de riquexós, bicicletas, automóveis e minibuses turísticos, enquanto vendedores ambulantes ultimavam os preparativos das suas bancas de fruta e restaurantes improvisados com cadeiras de plástico e mesas desdobráveis.
Apesar de tudo, a expectativa de descobrir Angkor pela primeira vez convidava-nos a ignorar o acessório, e ir directo ao essencial. Construído ao longo de três séculos e albergando mais de um milhão de habitantes no seu auge, o grande complexo de Angkor foi o centro da antiga civilização khmer que dominou o sudeste asiático entre os séculos IX e XII, e cuja influência se fez sentir na cultura, na tecnologia, na arquitectura e até na gastronomia dos países vizinhos.Percorrendo Angkor com o riquexó a encurtar as distâncias entre os inúmeros templos e palácios, fomos parando nas suas principais atracções. Passeámos maravilhados por entre as ruínas de Bayon, com as suas imponentes faces esculpidas na rocha contando a história de um rei que queria mostrar aos seus súbditos que estava sempre vigilante em cada esquina. Pelo Terraço dos Elefantes, imaginámos uma época em que grandes cerimónias aí se desenrolavam, coroações de reis ou vitórias no campo de batalha celebradas com grandiosas paradas de elefantes. Em Angkor Thom, vimos a floresta invadir as ruínas pondo em risco a preservação deste monumento mundial, poderosas raízes devorando a pedra como num sinal de que a natureza é mais forte que todas as construções do Homem. Finalmente, em Angkor Wat percorremos a antiga morada dos reis, atravessando a longa avenida de pedra polida vendo aumentar a cada passo os pináculos do palácio, uma silhueta que se tornou na imagem de marca de Angkor e de todo o Camboja.
Quando Portugal não existia ainda sequer nos sonhos mais remotos de um conquistador, Angkor vivia já o fausto dos grandes impérios, uma capital luminosa do Oriente que podemos ainda entrever nas suas ruínas, sobrevivendo ao tempo apesar do ímpeto devorador da floresta e da fúria insensata dos Khmer Rouge.
Tudo isto vimos com o olhar conduzido pela nossa imaginação, tentando não reparar nas hordas de turistas coreanos e chineses que espreitavam a cada esquina, nos vendedores de água e de postais que nos esperavam à saída dos templos, fugindo sempre que possível a termos uma Canon apontada à testa, tentando encontrar um espaço só nosso sem ninguém a pedir-nos para sairmos da fotografia. Sofrendo do mesmo síndrome da Mona Lisa no Louvre, sempre com turistas a impedir uma visão integral da obra, em Angkor é difícil termos um momento de paz para admirarmos a fineza dos seus traços e, no tempo de uma conversa a dois, deixarmos a afeição transformar-se em paixão.Sendo assim, Angkor foi para nós apenas um caso passageiro, um one-night-stand, e na manhã seguinte partimos em direcção à Tailândia. Os tempos mudaram em Angkor, e talvez a paz tenha sido o último sacrifício oferecido aos templos, em nome do aumento descontrolado do turismo. As suas ruínas são também a metáfora de um país na encruzilhada, dividido entre um passado glorioso e um futuro incerto, com cicatrizes recentes de uma guerra ignorada pelo mundo e que em resultado disso é hoje um dos países mais pobres do sudeste asiático, um Camboja que procura desesperadamente o seu rumo enquanto milhares de visitantes se passeiam alegremente pelos templos de Angkor.
Vejam as fotos por aqui...


8 Comments:
Hoje preguicei um pouco pela manhã ( que bem me soube, de cansado que estava ) e passeei-me calmamente por Angkor, à boleia de um riquexó com duas pessoas que sentem o que vêm numa atmosfera intimista e pessoal. Obrigado pelo passeio, pela serenidade com que souberam ver a cidade, por tudo o que me mostraram. Gosto de viajar convosco, mas voltem !!!
Belíssimo texto!! Fez-me viajar por Angkor...
ODEIO-VOS AOS DOIS! é que nem me apareçam à frente!!!
encore encore!!
(Angkor)
ehehe
Bjs e saudades do brother na Tugulândia
Não vou dizer bem nem do texto nem das fotos.. Já estão cansados de saber que para nós, comuns tugas, é um privilegio poder tirar partido da vossa inacreditável viagem!!
Os destinos continuam a ser deslumbrantes, mas sei que agora estão na vossa 2ªcasa ;)
Aguardo os proximos capitulos: os detalhes da vossa visita, o voluntariado.. Essas coisas todas que rematam a viagem em GRANDE, e que nos enchem de orgulho!
Bjs grds
inês
Já só faltam 2dias para o rei fazer anos ;)
PARABÉNS BROTHER!! UM GRANDE ABRAÇO CHEIO DE SAUDADE E SENTIMENTO. MTS BEIJOS AOS DOIS.
Muito bem escrito, com paixão e entusiasmo. O vooso livro vai ser um enorme sucesso. Tenho certeza.
Bjs
Quim
Adorei as raízes e os troncos magestosos das árvores, guardiãs dos templos e dos lugares mágicos; e adorei a aragem de um leque encarnado num sorriso vestido de castanho e uns ombros nús em pose de gargalhada; e um olhar transbordante de profundidade e magia de sorriso franco que revela tudo o que segreda ao seu moleskine; e os olhos gulosos com um garfo de esparguete cozido em saudades...
e tudo isto porque viajar convosco é pura poesia e assim que me fazem sentir...
irmandade sem limites
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