Monday, November 27, 2006

Old India em New Delhi

Wat Pra KaewDepois de quase sete meses de viagem e atravessando treze países pelo caminho, chegámos finalmente à Índia. Ao planear a viagem há muito tempo atrás, tínhamos decidido terminar a volta ao mundo neste país que nos diz tanto, por tantas razões por vezes misteriosas para nós próprios.

Logo à chegada ao aeroporto, já de madrugada, reconhecemos no ar húmido e quente o cheiro distinto da Índia, uma estranha mas cativante mistura de incenso, flores, diesel e bosta de vaca. Serpenteando pelo trânsito onde se acotovelam camiões de mercadorias, carros, motos e riquexós num alegre caos festejado a toques de buzina, entrámos então pela noite e pela Índia, esse país intenso a que, ame-se ou odeie-se, ninguém fica indiferente.

Wat Pra KaewEm New Delhi pela segunda vez, reservámos dois dias para descobrir locais que não tínhamos tido tempo para percorrer na primeira visita. A Purana Quila e o Red Fort, antigas fortificações, transportaram-nos para a época dourada dos imperadores Mughal, que entre os séculos XIV e XIX dominaram o norte da Índia, solidificando as bases da fé muçulmana nos territórios de predominância hindu e deixando como testemunhos eternos da sua grandeza obras como a imponente mesquita de Jama Masjid em Delhi ou o Taj Mahal.

Wat Pra KaewNa zona sul de Delhi, surpreendeu-nos o Lotus Temple, um dos únicos sete templos do mundo dedicados não ao culto de uma só religião, mas a todas as religiões, aberto como tal às preces de todos os que ali querem meditar, prestando tributo ao seu Deus. Como uma Ópera de Sydney em forma de lótus, no interior do templo pede-se apenas silêncio, num ambiente de paz e tolerância que se estende pelo parque a toda a volta.

Nos bairros e jardins em torno do India Gate, descobrimos a zona nobre de Delhi, edifícios com o traço clássico do Império Britânico que hoje albergam o Parlamento, a residência do presidente, embaixadas, hotéis ou lojas e restaurantes para a classe alta da cidade. No terraço do Q.B.A. álmoçamos demoradamente com vista para Connaught Place, iniciando-nos na habituação ao masala e ao picante, para nos refrescarmos no final com um gelado de líchias.

Mas tendo lido o livro Por Amor da Índia nos primeiros meses da viagem, a nossa maior expectativa estava guardada para revisitar alguns dos locais emblemáticos que testemunharam o discreto mas apaixonante romance de Lady Mountbatten, mulher do último vice-rei da Índia, com Jahawarlal Nehru, primeiro líder da independência, sobre o pano de fundo da época final do British Raj, lugares que em Delhi se cruzaram com os caminhos do pai fundador da Índia, Mohandas Gandhi.

Wat Pra KaewPelo Museu dedicado a Gandhi, descobrimos uma história contada sobretudo pelas fotografias, começando no menino de boas famílias nascido no ano de 1868 em Porbandar, no Gujarat, passando pelo ilustre advogado de trajes europeus defensor dos direitos da minoria indiana na África do Sul, culminando nas três últimas décadas da vida desse homem e activista político ímpar, de constituição frágil e trajes simples, que Winston Churchill apelidava de "faquir" mas para quem as massas e a história consagraram o título de Mahatma, a grande alma. Mahatma Gandhi, carinhosamente apelidado de Babu (avô) ou Gandhiji, será talvez a maior figura política do século XX, um exemplo que inspirou líderes como Nerhu, Martin Luther King ou Nelson Mandela e cujas palavras ecoarão através dos tempos, enquanto os homens preservarem como sagrada a memória da História.

Gandhi, ao contrário da visão dominante na Europa a partir da Revolução Francesa, defendia que a religião se devia misturar com a política, por ambas partilharem como objectivo último a procura incessante da Verdade. Sem fanatismos, tinha o coração aberto aos ensinamentos de todas as religiões, que procurou conhecer directamente pela leitura dos textos sagrados do Corão ou da Bíblia, sendo até um crítico acérrimo do que considerava ser uma vergonhosa herança do hinduísmo, a que pertencia por nascimento: o sistema de castas e o decorrente estigma dos Intocáveis.

A 30 de Janeiro de 1948, aos setenta e oito anos, a caminho das preces do final da tarde, foi alvejado a tiro em Delhi por um fanático hindu, na sequência do difícil processo de transição para a independência e a separação da Índia e do Paquistão, numa espiral de violência com banhos de sangue fratricidas entre muçulmanos e hindus contra a qual se levantava a voz desgostosa do Mahatma. Wat Pra KaewCremado no Raj Ghat, local que visitámos juntamente com os muitos indianos que por aqui continuam a vir homenagear o Mahatma, as cinzas de Gandhi foram lançadas sobre as águas dos sete rios sagrados da Índia, uma homenagem póstuma de um país que desejava ver unido e em paz.

Wat Pra KaewA Não-Violência como arma de combate por uma causa justa é a maior herança que nos deixou. Nada de novo, dizia Gandhi humildemente, afinal a Verdade e a Não-Violência são tão antigas como os montes. Talvez seja assim, mas a história escreve-se pelos homens que se atrevem a mudar o seu curso. Uma inspiração que redescobrimos em Delhi, nas palavras simples que o Mahatma Gandhi lançou como um desafio para as gerações futuras: sê a mudança que queres ver no mundo.

8 Comments:

Blogger Bluedog said...

Confesso que apenas passei o olhar pelo vosso texto, não o "respirei", mas foi o suficiente para me deslumbrar.

Estou apressado, de saída para mais um dia de formação a falar de marketing, que diferença, meu Deus !

Voltarei aqui logo ao fim da tarde.

Um beijinho grande

28.11.06

8:02 AM  
Blogger MacCoy said...

presumo que nao aprovariam a minha ak47 por esses lados...eheheh

joao, contaste à filipa que eras o ghandi no inter-rail??

NHO!

10:49 AM  
Anonymous Anonymous said...

LINDO!!!

Confesso que adorei o texto.. Ainda à pouco tempo estive a falar de Gandhi como um exemplo de simplicidade, humildade e sabedoria que representou para todos nós.. Era uma pessoa unica!

Adorei rever toda a historia dele no vosso texto. É bom saber que ele não morrerá nunca!

Mil beijos...
Now it's time to come back! :)

inês e rodrigo

1:27 PM  
Blogger Bluedog said...

"Sê a mudança que queres ver no mundo", I like that...

Beijinhos muito e cada vez mais

5:10 PM  
Blogger Bluedog said...

Lotus Temple, dedicado ao culto de todas as religiões...no interior do templo pede-se apenas silêncio, num ambiente de paz e tolerância...

Será tão difícil assim ???

Foi bom ter sabido que existe, que é possível, um passo a seguir a outro havemos de fazer o caminho.

10:23 PM  
Anonymous Anonymous said...

A Índia para mim continuia a ser um mistério. Mas Gandhi continua a ser um dos grandes HOMENS da humanidade. Pena que sejam tão poucos. Aproveitem bem esses dias que, pelo que entendi, é a segunda visita a esse enorme país.
Beijos do Vô

12:21 PM  
Anonymous Anonymous said...

Quero felicitá-los pela vossa empresa! De facto se houvesse mais gente assim com esta disponibilidade, tanto psiquica como financeira, este País sairia por certo mais facilmente deste marasmo em que vive.
Queria ainda corrgiri uma informação vossa. O livro de que falam chama-se Por amor à Índia.http://www.editoras.com/record/04695.htm
Tenham um bom regresso e aproveitem para coligir todas estas notas e editem um livro de autor.

11:53 AM  
Anonymous Anonymous said...

Vou à India em Fevereiro... e vi o endereço do blog na revista rotas do mundo. Decidi consultar e fiquei encantada com o que vi. Obrigada por me terem feito sonhar. Gostaria de trocar informações convosco. o meu mail é mamlemos@gmail.com. o meu nome Maria Lemos.

11:23 AM  

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