Monday, November 20, 2006

Paz em Luang Prabang

Não a planeáramos, mas Luang Prabang fez por se cruzar no nosso caminho. Em trocas de experiências com outros viajantes, esta antiga capital do Laos aparecia sempre como uma pequena pérola do mundo. Ninguém conseguia explicar muito bem porquê mas havia qualquer coisa nesta cidade que convidava a ficar.

Chegados a Bangkok onde nos sentimos por uns dias em casa, na companhia do tio Nuno, decidimos seguir o instinto e ir à procura dessa pérola. Bangkok ainda nos esperaria para uma despedida em grande da Tailândia e assim voámos para o Laos, dizendo um até já ao tio Nuno, também ele um fã de Luang Prabang.

E sofrendo do mesmo encantamento que todos os outros viajantes, ali nos deixámos ficar um dia, dois, três ... uma semana que se completou sem pesar o passar do tempo. E porquê? Por nos sentirmos tão bem.

Luang Prabang respira como se estivesse em meditação, uma paz que se sente no ar e se reflecte nos templos dourados a toda a volta, de porta aberta à reflexão.

Convidando a passeios de bicicleta, a cidade aconchega-se no abraço de dois rios, com um passado colonial francês que lhe traça o contorno das casas, numa harmonia muito própria com a espiritualidade budista que domina a luz da cidade.

Restaurantes e patisseries com esplanadas ao ar livre recheiam os dias com apetitosas refeições que se prolongam em relaxados momentos de leitura, escrita ou contemplação.

À nossa volta, muitos, muitos monges trazem o laranja à cidade, numa passagem pelos templos tão honrosa para a família. Nos países de influência budista é tradição os rapazes entregarem pelo menos três meses da sua vida a uma existência espiritual. Nem todos, no entanto, parecem viver esta experiência por pura devoção. Para alguns, este período de 3 meses é uma oportunidade de fugirem ao trabalho dos campos onde a dura rotina rural, se estende de sol a sol. Entregam-se desta forma a uma rotina budista, pedindo abrigo num templo e vivendo das ofertas da comunidade que lhes presta reverência. Alguns despertarão nessa entrega para uma vida espiritual, acabando o templo por se tornar na sua morada para a vida, na busca tranquila da iluminação. Os outros regressarão a casa, voltando a trocar as túnicas por trajes do campo, esforçando de novo o corpo em vez da mente. Com maior ou menor profundidade, a maioria dos rapazes acabará por crescer nesta passagem, voltando, queremos nós acreditar, com uma mensagem de paz.

E juntando-nos ao ritual que se tornou numa das grandes atracções da cidade, acordámos de madrugada e pedalámos até à rua principal, carregados com comida para oferecer aos monges. Na cidade ainda adormecida, vultos iam-se aproximando com as suas oferendas na mão, esperando em silêncio pela passagem dos monges. Claro que, havendo turistas, para alguns esta cerimónia constitui fonte de negócio, pelo que também ali estão, com a madrugada, a tentar vender o tradicional sticky rice, bandejas para colocar os alimentos ou até esteiras para as pessoas se sentarem ou ajoelharem no chão. Mesmo assim, com este fait diver, a aura que se sente é especial e o respeito do momento prevalece.

Já perto das seis e meia, começamos a vê-los chegar. De cabeça rapada, pés descalços, reflectindo a luz matinal nas suas túnicas laranja, os monges deslizam numa fila silenciosa, com as suas terrinas estendidas para receber alimento. A um nível abaixo e olhando para o chão , as pessoas fazem as suas ofertas, sempre em silêncio, como que em oração. E os monges seguem em fila, de volta para os seus templos, dando-se assim início ao dia, num abençoado despertar.

Envolvida por arredores tropicais, Luang Prabang também convida a passeios de um ou mais dias, explorando cavernas com budas, cascatas para um mergulho ou trekkings pela selva para conhecer monirias étnicas. E no país que já foi conhecido pelo país dos mil elefantes, escolhemos ... um passeio de elefante, a caminho das cascatas Tad Sae, do outro lado do rio. Pela selva adentro, num andar pesado e comendo fruta pelo caminho, a nossa simpática elefanta, deu-nos boleia por uma hora, nós no alto das suas costas tocando as copas das árvores bem de perto. Mas tendo a chuva intensa encharcando a noite que passara, o rio encheu e a elefanta não o pôde atravessar. Seguimos então de barco, para a outra margem, onde nos esperava um almoço à beira das cascatas. Cheios de calor, nem demos tempo ao corpo para reclamar a temperatura da água, fresquinha, fresquinha. E assim gozámos uma bela tarde de sol e mergulhos, num cenário verdadeiramente tropical.

Depois do passeio voltávamos de novo a Luang Prabang, às nossas bicicletas, templos e esplanadas. Já nos sentíamos em casa, conhecendo a morada dos melhores crepes, dos melhores petiscos locais ou do melhor spaghetti, para alternar. Lemos e escrevemos sem pressas, gozando a aura tranquila da cidade. Conhecemos o entardecer do monte Phousi, perdemos a conta aos templos que visitámos e trocámos frases simples com os monges, no seu limitado vocabulário de inglês. Deliciámo-nos com o peixe grelhado na rua, andamos vagorosamente pelo night market e até nos demos ao luxo das massagens, anunciadas a preços quase de graça, nos muitos mini spa da cidade.

Dias que se preencheram naturalmente, com as horas passando sem pedir licença. Uma semana que se completou e nos anunciou o momento da partida.

Não tínhamos vindo numa pausa espiritual, como todos aqueles monges à nossa volta. Mas acabáramos por vivê-la, nessa semana em Luang Prabang. A pérola que nos falavam, era isso mesmo, um precioso lugar de relaxamento e de reflexão. E na despedida, olhando os monges ao longe, sentimos que também ali nos tínhamos entregue ao pensamento e que de alguma forma também nós traríamos uma mensagem de paz, no regresso a casa.

Viajem connosco por aqui ...

8 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Ah, ah!!!
Primeirinha, primeirinha! ;)

As fotos estão demais, as cores, as crianças e voces, claro!! Filipa, a tua tunica castanha do outro dia já era mto bonita mas esta com o estampado tambem ñ fica nada atras: Estás mto Linda!!

O ritual dos monges confesso que foi o que mais me fascinou em toda a historia talvez pela paz que isso representa intrinsecamente..

Já falta tão pouquinho!!! ;)
Bjos grds!
inês e rodrigo

5:05 PM  
Blogger GoncaloCV said...

Este texto revela mais uma vez a paz que sentem e nestas singelas palavras conseguem contagiarnos com essa enorme alegria que estão a experienciar. A luz de fotografias expõem aos nossos olhos a vossa visão deste mundo longícuo repleto de poesia e esplendor. Já podemos dizer que estivémos no Laos, juntos com o nossos amigos, os nossos imãos, junto a vós.
Voltem repletos de sabedoria para nos poderem transmitir essas enormes sensações.
Bjs enormes com uma pérola de sal enquanto aguardo o vosso regresso.

O que acham?

;-)

5:26 PM  
Blogger Bluedog said...

De regresso a casa, depois de um dia muito cansativo, uma reunião interminável de fim de tarde com mais de 3 horas às voltas com a definição de um plano, uma visão imperdível do filme "The inconvenient truth" (Al Gore), nada melhor do que esta estadia em Luang Prabang, já perto da uma da manhã de dia 21,aqui em Lisboa. Beijinhos grandes

1:10 AM  
Anonymous Anonymous said...

Queridos Filipa e João,
Foi só me ausentar da net por uns dias para o João fazer aniversário... Que comemoração linda deve ter sido esta dos 30 anos!
Atrasados mas de coração, mandamos um grande abraço lisboeta para o desaniversariante, com os votos de muitas e muitas felicidades!
E dia 10 está chegando!
Beijos grandes para os dois,
da Cristina e Ricardo H.

9:07 PM  
Anonymous Anonymous said...

Gostei muito da descrição de Luam Prabang mas aqui no escritorio ao meu lado um tipo, com ar de Thai-Chines queixou-se que ainda não viu nada escrito sobre a Tailandia

Nuno

9:06 AM  
Blogger Billy said...

Se em Luang Prabang se cruzarem com o Dani e a Flávia, amigos argentinos de Buenos Aires, aproveitem para falar com eles. Que coincidência: abri o vosso blog, abri o do Dani, e estão todos em Luang Prabang, que deve ser o centro do mundo.
O blog do Dani é: www.danialpedo.blogspot.com

12:44 PM  
Anonymous Anonymous said...

Pela descrição que fazem de LUANG PRABANG digo-vos que a vossa estadia no Laos deve ter sido fantastica,e quasi aposto que as conversas que tiveram com o tio NUNO grande admirador destas paragens,os levaram a alterar os vossos planos e irem até esta cidade.As fotos confirmam a beleza deste paiz.Estou vendo que a vossa paragem na INDIA os tem levado a actualizar o vosso blogue,parabens.
Dia 10 de dezembro está a chegar e nessa altura teremos muito para conversar e até lá recebam um apertado abraço e um grande beijo dos vossos avos
G e G

3:13 PM  
Anonymous Anonymous said...

A cada descrição dessas terras que leio vejo o quanto perdi por nunca me ter aventurado por essas paragens. Deve ser realmente refrescante para a alma e para o corpo. Uma terapia natural da maior valia
Bjs
Quim

1:29 PM  

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