Monday, November 27, 2006

A Vida vista do Ganges

Terceira paragem desta passagem pela Índia, Varanasi, a cidade sagrada do Ganges, era um dos destinos que antecipávamos com maior expectativa. Autodenominada a cidade viva mais antiga do mundo, Mark Twain escreveu uma vez que"Varanasi é mais antiga que a história, mais antiga que a tradição, mais antiga que as lendas, e parece duplamente mais antiga que todas elas somadas juntas". Local de bons auspícios para os hindus, diz-se que morrer em Varanasi permite alcançar a moksha, a libertação do ciclo de morte e renascimento, e uma das marcas mais distintas da cidade são por isso os seus crematórios junto ao Ganges.

Chegámos a Varanasi em dia de festa, por ocasião da lua cheia de Purima, a mais importante do ano, e os preparativos eram visíveis já na alegre azáfama que percorria os ghats, as longas escadarias que prolongam a cidade para dentro do rio sagrado. Crianças juntavam-se aos adultos na preparação das velas que, semeadas um pouco por todo o lado pelas escadarias converteriam os ghats num enorme manto estrelado, com o cair da noite. Ao fim da tarde, juntámo-nos então à multidão que se começava a aproximar das cerimónias junto ao Ganges, crescendo à medida que se iam acendendo as velas uma a uma, até que se tornou dificil seguir sem atropelos pelo caminho estreito que acompanha o rio. Fugindo à confusão, entrámos num barco repleto de famílias indianas, deslizando pelo Ganges onde assistimos à festa que seguia rio acima pelos diferentes ghats, a noite já escura iluminada por incontáveis milhares de velas, cintilando como estrelas ao longe que se apagavam apenas por momentos com a passagem da multidão. Um cenário mágico que vibrava intensamente com um mar de gente e de música vinda de todas as partes, feita de cítaras, sinos e tambores cerimoniais, uma banda sonora interrompida a espaços pela explosão dos fogos-de-artifício.

O dia em Varanasi começa cedo, e num dos dias acordámos por isso de madrugada para assistir ao nascer do sol sobre o Ganges, uma das experiências consideradas obrigatórias para quem por aqui passa. Num pequeno barco a remos, seguimos vagarosamente cortando a penumbra, ondulando com o silêncio matinal, vendo lentamente o dia clarear em reflexos cor-de-rosa sobre o rio, que se iam tornando laranjas e amarelos enquanto a cidade acordava com a chegada do sol. Nestas primeiras horas testemunhámos os rituais da puja, o banho sagrado a que velhos e novos se entregam logo com o nascer do sol, famílias inteiras celebrando a vida a cada dia que começa. Ao longo do rio, miúdos lançam aos céus coloridos papagaios de papel ou brincam alegremente chapinhando sob o olhar indiferente dos búfalos, que em manada se juntam aos banhos na hora do calor.

A poucos metros de tudo isto, famílias enlutadas reúnem-se solenemente nos locais de cremação para a última despedida, sob a luz derradeira das chamas ateadas a céu aberto. As cinzas são de seguida lançadas ao Ganges, esse rio onde tudo começa e acaba para os hindus.

Por quatro dias em Varanasi, sentimos também o pulsar frenético da cidade, nas ruas e ruelas à volta do mercado onde o comércio segue animado apesar do caudal caótico de riquexós, motas e vacas em constante movimento. À hora do almoço, encontrávamos refúgio no Lotus lounge, um restaurante sobre o rio onde pusemos a leitura em dia entre spring rolls frescos e rodelas de beringela mergulhadas num creme de iogurte e menta, numa varanda confortável em que o tempo gostava de parar para descansar. Ao cair da noite, passado o dia de festa as cerimónias concentravam-se no Dasaswarmehd Ghat, num estranho ritual de fogo e incenso que voltava a atrair uma assistência numerosa, enquanto tambores e sinos iam marcando as batidas aceleradas de uma cadência hipnótica que prendia a multidão em suspenso. Numa das noites lançámos também as nossas velas ao Ganges, numa devoção só nossa de agradecimento e benção em que tivemos a família connosco, numa oração ao passado, presente e futuro.

Cidade de extremos num país de extremos, Varanasi é a imagem de uma Índia onde a religião se confunde com os gestos mais comuns do quotidiano. Um lugar sagrado de um misticismo intenso, uma cidade de antepassados, uma história contada há gerações e gerações. Como em nenhum outro local, por aqui a vida e a morte acompanham-se como duas faces de uma moeda, o nascer e o pôr-do-sol. Mas na atmosfera vibrante da cidade, é a vida que prevalece e que cada dia se renova, como sempre, com a força eterna de um longo rio tranquilo.

Viajem connosco por aqui ...

10 Comments:

Blogger Bluedog said...

"Uma é a claridade do Sol, outra a claridade da Lua e outra a claridade das estrelas. E ainda há a diferença de estrela a estrela, na claridade".

Faltam 9 !

Grande beijoca

10:45 AM  
Anonymous Anonymous said...

Bela descrição da vossa estadia em VARANASI,até apetece ir lá para gosar a paz de espirito que se deve presenciar.Os costumes dessa gente são muito especiais e com dificuldade conseguimos alcançar o que lhes vai na alma.Mesmo assim vier com eles deve ser muito agradavel e entender os seus pensamentos muito melhor.Aproxima-se a vossa chegada e nessa ocasião deve ser fantastico viver as vossas emoções pelos os inumeros locais por onde passaram.
Um beijo e um grande abraço para ambos dos vossos avós
G e G

3:19 PM  
Anonymous Anonymous said...

Varanasi é a morte viva se isso faz algum sentido. Como aliás o Ganges o rio que dá vida e acolhe a morte.

Belas pinceladas dos ultimos retoques na vossa obra final.

Bjs

Tio Nuno

8:42 AM  
Blogger Bluedog said...

3.12.06

Goa, como mais um marco da Peregrinação...assim involuntáriamente vos associei à outra Peregrinação, a do Fernão Mendes Pinto. Alguns séculos vos separam...e não só...mas há alguma forma de portugalidade que se reencontra...e não estou a falar do V Império !!!

Faltam 8 !

Beijocas

9:45 AM  
Blogger M said...

se o texto é sublime, as fotos são... que espetáculo.

11:38 PM  
Anonymous Anonymous said...

OLHEM LÁ!, isso de andarem a competir quem chega cá mais bronzeados, voces ou a cat e o gonçalo; não vale!!!

Até pq nas fotos do natal estamos lá todos nós e há quem esteja a trabalhar sem poder se ausentar em viagem..

Vou falar com os restantes como eu e vamos passar esta ULTIMA SEMANA dentro dos caixões do solário :D

FALTAM APENAS 6 DIAS :)
Beijos grds
inês e rodrigo

12:03 PM  
Blogger GoncaloCV said...

pelas fotos acho que vamos ganhar ...

12:58 PM  
Blogger Bluedog said...

4.12.06

Faltam 6 !!!

Editorial da Blue Travel de Novembro:

"...têm a coragem de pôr tudo em causa para poderem partir...Também não vou esquecer nuca a forma como o João e a Filipa me apresentaram a ideia de dar a volta ao Mundo. "Sentimos que temos de ir. E que é agora", disseram-me. E foram. Em Lisboa deixaram saudades e a carreira de marketing em stand by. O gosto pelo texto e pela fotografia, assim como uma noção clara do que é o espírito Blue, vai permitir-nos publicar algumas etapas dessa viagem. Na edição anterior já tivémos a do deserto de Atacama".

Só hoje dei por mais esta pérola no colar dos nossos queridos viajante.

"Run boy, run, beyond the hills..."

6:43 PM  
Blogger Bluedog said...

5.12.06 - 8h18m

FALTAM 5 !

Em Portugal continua a chover...

Beijinhos

8:18 AM  
Anonymous Anonymous said...

Olá!
Conheci-vos no Laos, quando por lá andava a passear com a minha irmã, prima e cunhado.
Tenho lido o vosso blog regularmente e gostava de dizer que tenho adorado viajar convosco:)
Beijinhos, Margarida.

7:38 AM  

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